quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Começo da Vida de Escuridão

Fernando Firpo


Olho para o passado e vejo que meu tempo já se foi. Às vezes acho que pouco resta de humanidade no meu corpo frio. Mas lembro-me que sou capaz de amar, lembro de minha alma gêmea e ganho forças no dia a dia de minha pós vida.

...

Eu não sabia há quanto tempo já me encontrava naquele cômodo, provavelmente alguns dias. Sem janelas ou qualquer luz natural era impossível precisar o tempo. As visitas do meu algoz não pareciam seguir qualquer hora determinada.

Meu captor me ensinava um pouco do que me tornei: uma vampira, uma criatura da noite, um demônio da escuridão.
Bebi o frio sangue deixado por diversas vezes. A sede às vezes se torna forte demais. Posso perceber que meus sentidos estão mais aguçados e sensíveis, sempre posso ouvir os leves passos antes de a porta de minha masmorra seja aberta.

No pequeno cômodo só existia a cama, uma velha poltrona e um simples criado mudo. Nenhuma janela, apenas uma grossa e pesada porta de madeira maciça. Poucas vezes pude ouvir qualquer som vindo do exterior.

Eu já esperava quando a pesada porta foi aberta e a impotente figura do meu algoz entrou no cômodo. Seu nome é San Perteson e eu nada sei sobre ele, tirando o fato de que é um vampiro.
O monstro entrou com cuidado vestindo seu terno clássico e elegante costumeiro. Eu já tinha tentado a fuga anteriormente, fato que o tornou mais cauteloso. Jogou-me uma roupa amassada e com seriedade disse:
--- Chegou a hora de sairmos, você não achou que ficaria eternamente nesse quarto sujo. Se vista, voltarei em alguns minutos.

Minha felicidade não poderia ser contida. Eu acreditava que nunca mais teria a minha liberdade novamente. Mas ainda era muito cedo para qualquer tipo de comemoração.
Vesti os trajes simples, mas limpos. Eu já estava há muito tempo sem tomar banho ou qualquer tipo de higiene pessoal. A porta estava entreaberta e cautelosamente sai de minha prisão.
O cômodo seguinte era mais amplo e mais sujo que o anterior, também sem qualquer janela para o mundo exterior. O monstro já me aguardava e disse:
--- Siga-me.
Ele se dirigiu para uma escadaria que se encontrava em uma das laterais e subiu sem demonstrar pressa. Eu o segui rapidamente, temendo ficar para trás.
O cômodo superior mostrava uma biblioteca com muitos livros e algumas poltronas luxuosas e finalmente, uma janela para o mundo exterior. Saímos por uma espécie de porta escondida atrás de uma estante deslizante. Eu estava antes em alguma sala secreta no subterrâneo.
Um jornal estava sobre uma mesinha e peguei para verificar a data. Era 12 de fevereiro de 1958, eu havia passado três semanas em minha prisão.
Deixamos a biblioteca para uma ampla sala, bastante ampla e ricamente decorada. Deveríamos estar em uma residência luxuosa.
Uma mulher bonita e trajando um uniforme de empregada se aproximou com um olhar baixo e educadamente disse:
--- Precisa de algo antes de sair Senhor Perteson?
Eu podia perceber um misto de medo e respeito que a mulher sentia pelo monstro. Mas de algum modo eu sabia que ela era humana. Eu quase podia sentir o cheiro de seu sangue e sentir o mesmo correndo em suas veias.
--- Sim, escolha roupas adequadas para a nossa hóspede, sairemos para caçar.
O homem olhou-me com arrogância e completou:
--- Espero não ter surpresas em sua conduta senhorita Márcia, conforme já expliquei, detestaria fazer sua mãe sofrer os piores dias de sua vida inútil. Fiz-me compreender?
Eu apenas fiz um movimento suave com a cabeça, ainda tentando compreender a situação. Era nítido que a mulher ainda é humana e eu fui transformada em uma vampira. Deveria existir uma explicação para esse fato.
A mulher pediu que eu a seguisse e através de uma larga escadaria fui a um piso superior.
Eu nunca havia presenciado tamanho luxo em um dormitório. Os móveis e a decoração são bastante luxuosos. A quantidade de cômodos e o espaço interno indicavam que nos encontrávamos em uma mansão.
Outra mulher humana, também trajada como empregada e também muito bonita, juntou-se a nós e ambas ajudaram-me a tirar as minhas roupas e com um banho apressado.
Trouxeram-me vestimentas novas e sensuais. Eu estava parecendo uma prostituta de luxo, já havia vestido trajes assim para sessões fotográficas. Tentei dialogar com as garotas e perguntei:
--- O que acontecerá agora?
Até aquele momento as mulheres disseram apenas palavras básicas a fim de me auxiliar, nenhuma conversa havia sido iniciada. Elas ficaram apreensivas por um momento e depois a que parecia de mais idade disse:
--- Fique calada e obedeça ao nosso mestre. Nós temos que obedecê-lo.
As palavras de nada esclareceram e rapidamente as mulheres me puxaram para o andar inferior sem dizer mais nada.
O monstro já se encontrava esperando e mostrando sinais de impaciência. Olhou-me com satisfação e sorrindo de forma cruel disse:
--- Você é muito bela. Siga-me.
Saímos pelo que percebi se a entrada principal da mansão, uma grande porta dupla e alta. No lado de fora pude com prazer sentir a brisa da noite tocar a minha face. A boa sensação durou um breve momento, até que o mostro falou:
--- Venha logo. Podem passar séculos e as mulheres sempre demorarão a se arrumar para sair.
Na garagem se encontrava o belo carro esportivo que eu já conhecia alguns dias antes. Educadamente o monstro abriu a porta e convidou-me a entrar.
Outra mulher que eu não tivera contato ainda abriu o portão e sai de carro com o monstro. Saímos para uma rua de pouco movimento, mas com inúmeros casarões.
Eu estava curiosa para saber o que aconteceria e resolvi utilizar o método mais direto possível. Perguntei:
--- Onde estamos indo?
O homem olhou-me como se eu fosse uma criança assustada. Mas sua face rapidamente mudou para um olhar sério e cruel. Ele respondeu:
--- Hoje você passará por sua provação, se tornará a minha cria, ou morrerá. Hoje saberei se acertei em minha escolha.  Eu já a observava há quase dois meses.
A revelação me assustou por um momento, mas não existia tempo para deixar que as emoções tirassem a minha razão. Eu precisava saber mais se quisesse sobreviver.
--- Que tipo de provação?
O homem teve um sorriso breve em seu olhar de crueldade. Acho que se divertia com aquela situação e não tive dúvidas que me mataria se assim o desejasse.
O monstro permaneceu em completo silêncio. Eu queria perguntar mais, mas preferi aguardar os acontecimentos.
Logo chegamos a uma rua fechada com uma grande festa. Muitos jovens estavam divertindo-se com a música italiana e muitas bebidas. O monstro estacionou seu carro e, novamente de forma educada, abriu a porta para a minha saída.
Andamos um pouco entre as pessoas. Eu sentia-me diferente e era muito estranho estar entre as pessoas. Eu podia sentir um desejo presente por sangue, controlável naquele momento, mas que se tornaria insuportável por muito tempo em abstinência. Eu enxergava as pessoas de modo diferente, meu sentimento para com os humanos continuava como antes, mas algo mais estava presente.
--- Essa é a festa dos estudantes de medicina. Em alguns anos esses rapazes estarão salvando vidas e ajudando o próximo, talvez alguns deles só estejam interessados por dinheiro, outros têm uma ideologia muito forte.
Mantive-me em silêncio, aguardando o teste que estava por vir e interessada pelas informações úteis que viriam. O monstro continuou:
--- Observe com atenção aquele rapaz de suéter verde. Seu nome é César, ele tem vinte anos, é um estudante muito dedicado, seus pais são comerciantes humildes, estão lutando bastante pelo estudo do filho, esse é voluntário em um hospital nos finais de semana e ajuda em uma creche, ele é muito bom com crianças. O genro que qualquer senhora desejaria. Um futuro profissional que trabalhará pelo bem das pessoas.
O monstro olhou-me aguardando algum comentário. Eu não entendia o que seria aquela situação e estava com medo de perguntar. Mas logo entendi a minha dura provação.
--- Sua vida humana terminou. Agora você escolhe se assumirá sua condição como vampira, ou encerrará sua existência permanentemente. Você deverá beber César até sua morte. Pode desistir agora mesmo, tem minha palavra que sua mãe ou qualquer outra pessoa não sofrerá ou será afetada se você decidir desistir, você tem a minha palavra.
Ele fez uma pausa breve. Minha expressão deveria ser de horror, mas não tive muito tempo para me recompor e ele continuou:
--- A decisão é sua e somente você e o estudante serão afetados por ela. César poderá continuar sua vida e seus estudos ou encontrará a finalização de sua existência hoje, a escolha está em suas mãos. Dessa noite você ou César continuarão sua existência, mas não os dois. Por outro lado, fuja, minta ou apronte qualquer outra coisa e sua mãe e todos que você conhecia sofrerão as conseqüências, tenha certeza disso.
Ele virou-se e começou a se afastar. Suas últimas palavras foram:
--- Estou aguardando no carro, não demore em sua decisão, mais algumas horas e o Sol aparecerá, será você ou César.
Eu não sabia o que fazer. Existia o correto e existia o melhor para mim. Eu não poderia tirar a vida de outro ser humano. Pensei em seus pais chorando sobre uma sepultura e sofrendo, como minha mãe deveria estar sofrendo naquele momento. Pensei em todas as pessoas no presente e no futuro que seriam ajudadas por aquele futuro médico. Era uma decisão impossível.
...
O monstro encontrava-se dentro do carro com um olhar distante e distraído. Parecia que não perceberia a minha aproximação, mas eu nunca poderia subestimá-lo.
Abri a porta e sentei-me em silêncio e com cabeça baixa.
--- Eu sabia que você conseguiria. Você se adapta as situações e faz o que é necessário para sobreviver. Seja bem vinda ao meu mundo.