Fernando Firpo
Eu tive alguns meses para experimentar a vida no Brasil. Um povo interessante, uma cultura bastante rica. São Paulo é uma cidade intrigante, pode-se encontrar nela a riqueza de uma importante cidade do primeiro mundo e a pobreza de um país miserável.
Eu continuei minha vida como um cidadão de classe média, nunca chamando a atenção. Meu relacionamento com a complexa sociedade vampírica da cidade foi muito bom, fui bem recebido e fiz algumas amizades.
O telefone tocou. Era começo da noite de inverno. Teriam menos pessoas nas ruas.
O som estava tocando uma banda nova que eu havia recebido recentemente o disco vinil dos Estados Unidos chamada Pink Floyd. Abaixei o som e calmamente atendi:
--- Alô.
A pessoa do outro lado da linha falou em francês:
--- Como está Sr. Thorn? Aqui quem fala é Francis Louis.
Eu conhecia o Sr. Louis, era um vampiro influente em Paris. O que ele poderia querer comigo. Resolvi perguntar:
--- Eu estou bem. Em que posso ajudá-lo Sr. Louis? Já faz algum tempo que não tenho contato com a sociedade de Paris.
Ele demorou um pouco a responder:
--- Um mensageiro irá procurá-lo essa noite. Ele tem uma missão para você.
Aquilo não era incomum, mas chegava a ser inconveniente. Essas missões eram excelentes para os que queriam crescer dentro da sociedade, mas eu não gostava de política e estava contente com uma vida calma. Mas recusar uma missão seria ainda mais arriscado.
--- Ok, estarei aguardando. Posso ajudá-lo em mais alguma coisa?
--- Não, somente cumprindo satisfatoriamente sua missão. Até qualquer dia.
Ele desligou e eu fiz o mesmo. Fiquei apenas aguardando que péssimas notícias um mensageiro logo me passaria.
Não precisei aguardar muito. Logo o interfone tocou e o porteiro perguntou se eu permitia que subisse um homem chamado Felipe Costa.
Eu conhecia o Felipe apenas de vista, já tinham me apresentado. Ele era um vampiro novo, nascido em São Paulo e seus serviços eram muito úteis em determinadas situações, pois ele trabalhava no período noturno na polícia de São Paulo. Alguns diziam que ele era um artista na arte da investigação.
Logo que a campainha tocou abri ansiosamente a porta. Após uma saudação breve Felipe disse:
--- Será que podemos dar uma volta?
Eu sempre fui uma pessoa precavida. Essa precaução algumas vezes já havia salvado minha pós vida. Receoso falei:
--- Não podemos conversar aqui mesmo? Que lugar teríamos mais privacidade?
Ele hesitou por alguns instantes e depois disse:
--- Tudo bem, se você prefere assim.
Com convicção e um pouco de arrogância mostrei meus conhecimentos:
--- Vamos nos sentar então. Você é Felipe Costa, cerca de 30 anos de existência como vampiro, nasceu aqui em São Paulo, mas viveu em Paris por 2 anos. É um Toreador, tenente da polícia em São Paulo, departamento de investigações especiais turno noturno.
Rindo ele disse:
--- Você fez seu dever de casa. Eu também já colhi algumas informações suas, embora sua vida seja muito mais obscura. Você tem pelo menos 200 anos de idade, talvez uns 300 anos, tem negócios na Europa, é mais rico do que aparenta nesse momento.
Rindo falei também:
--- Tenho mais que isso, algo mais. Mas que missão importante lhe traz aqui?
Ele ficou sério por algum tempo. Refletiu um pouco em como começar e logo estava falando:
--- Você está a algum tempo em São Paulo, já viveu o bastante por aqui para acompanhar a tirania do Príncipe Mark Volts. Ele sempre nos foi útil, os negócios entre o nosso clã e o Clã Ventrue sempre foram muito bons em São Paulo, mas o príncipe está ficando louco e descuidado. Tem arrumado inimigos entre vampiros poderosos, não tem permitido o nascimento de novas crias, tem arrumado confusões com clãns neutros, entre outras besteiras. Cedo ou tarde ele será derrubado, é apenas uma questão de tempo e de um momento mais vantajoso. Fui informado da amizade entre vocês no passado e que esta mesma amizade ficou no passado.
Eu já presenciei príncipes subirem e caírem algumas vezes. A realidade é que um Príncipe acaba caindo rapidamente se não tiver uma base forte, ou seja, se não tiver ao seu lado vampiros fortes. E eu já havia notado o atrito do príncipe Mark com muitos membros de São Paulo, mas não achava que arriscariam derrubá-lo do poder. O risco de São Paulo ser invadida e tomada por inimigos é muito grande.
--- Sim, tudo isso eu percebi. Mark e eu fomos amigos, isso em outra época. E onde eu entro nessa história?
--- Calma. O que você não sabe é que o Príncipe será morto numa festa dentro de três dias.
Ele esperou sua revelação fazer efeito em mim. Realmente eu estava surpreso. Uma afirmação daquela poderia facilmente condenar um vampiro a sua morte final e eu poderia estar sendo testado. Com cautela afirmei:
--- Se o Clã Toreador tem interesse em manter o Príncipe Mark no poder deve tomar suas providências.
Sorrindo ele disse:
--- E essas estão sendo tomadas e você é parte delas.
Eu já esperava por algo assim e não estava contente. Lidar com vampiros novos não envolvia grandes riscos, mas possivelmente estariam envolvidos vampiros antigos e de imenso poder.
--- E qual seria a minha parte nessa missão?
--- Você não levantará suspeitas, nunca esteve envolvido diretamente com a política de São Paulo, terá contato direto com o Príncipe e irá tirá-lo da festa no momento que for atacado. É muito importante que ele veja seus agressores e saiba que foi traído. Você terá mais acesso ao Príncipe que a maioria.
Pensando falei:
--- Não sei se ele confiará em mim, ou mesmo se me deixará chegar próximo, como você disse, fomos amigos e isso é parte do passado. Talvez eu não tenha nem como ficar distante dele. Eu não freqüento festas aqui na cidade.
--- Isso já foi arranjado, é o menor dos problemas. Ele o receberá. Depois de sair da festa vocês me encontrarão num local determinado e sua missão estará encerrada. Estamos acertados?
Com certo receio respondi:
--- Sim, sem problemas.
Mas infelizmente os problemas surgiram. Tudo correu conforme o previsto na festa. Tive oportunidade de conversar com o Príncipe Mark e permanecer relativamente próximo a ele. Também pude salvá-lo da festa retirando-o do local rapidamente tornando-nos invisíveis. A missão não enfrentou grandes riscos.
Conforme combinado o Príncipe Mark ficou com o Felipe e outros três vampiros. Somente no dia seguinte fiquei sabendo que Felipe e os outros haviam sido atacados e abandonados bastante feridos nos esgotos da cidade e o Príncipe Mark havia desaparecido.
A cidade estava ameaçada pelo caos. O risco de uma guerra pelo controle da cidade não estava descartado. E o problema de uma invasão externa era ainda maior.
Pensei bastante antes de tomar a decisão. Eu não havia vivido por tanto tempo sendo descuidado. Eu já planejava deixar temporariamente o Brasil em algumas semanas, devido a negócios na Europa. Logo tomei a decisão e telefonei para Londres.
Depois de passar por uma secretária logo uma voz feminina disse em francês:
--- Como está Bill? Há quanto tempo não liga...
--- Estou bem, e você Cathrin? Preciso que você arrume algumas coisas para mim. Dentro de algumas horas estarei chegando em Londres e posteriormente devo seguir para Paris. Não tenho horários exatos ainda. Você sabe o que fazer.
--- Ok, iniciarei imediatamente os preparativos. Problemas muito graves em São Paulo?
--- Sim, depois falaremos disso. Até daqui a pouco.
--- Até, tome cuidado.
Desde que eu havia vindo para São Paulo que um esquema de emergência estava pronto. Em pouco tempo eu estaria longe.
Conforme já estava definido peguei um helicóptero no heliporto de um conhecido hotel e logo estava no aeroporto onde um jato fretado me tirou de São Paulo em direção a Londres. Mas nessa época eu pouco sabia que meu futuro ainda estava em São Paulo, muito existia ainda por viver naquela intrigante cidade...