quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Pequena Cathrin

Fernando Firpo

Eu já estava há vários anos vivendo em Moscou, na Rússia. Era um local bastante interessante, com sua industrialização aflorando e os sinais da Primeira Guerra Mundial presentes por toda à parte. Eu nunca antes vivera em num local tão frio.
Eu tinha um amigo que nasceu em Moscou, viveu durante um tempo na Europa, e depois retornou para Moscou alguns anos antes de mim. Ele me apresentou para a sociedade na cidade.
É sempre arriscado chegar a uma cidade sem um contato confiável. Meu amigo Alexander Silove foi de grande ajuda nos meus primeiros meses na cidade e devo muito a ele.
Arrumei alguns empregos noturnos e aluguei uma pequena casa. O trabalho sempre é útil quando quero me fazer passar por mortal e ajudá-me a manter vínculos com os costumes mortais.
Eu vivia razoavelmente bem, me alimentava algumas vezes de prostitutas, às vezes de soldados feridos, a alimentação não chegou a se tornar um problema. Por raras vezes acabei por matar alguém, mas isso eventualmente acaba por acontecer. Sinto pelas famílias que por ventura devo ter abalado.
Mas nada dura para sempre, a guerra já parecia estar no final quando explodiu  uma nova guerra, que anos mais tarde, ficou conhecida como a Revolução Russa de 1917. O país literalmente enlouqueceu e Moscou virou um grande campo de guerra.
--- Se for preciso atire na população civil.
Com profundo desprezo ouvi essas palavras serem ditas por um oficial militar. Era noite e eu estava em busca de alimento.
Em meio a tiros e gritos um choro de criança chamou a minha atenção.  Eu estava em frente a uma casa de construção bastante velha e vários tiros foram disparados dentro da casa.
Coloquei-me ao lado da porta, no mesmo momento que um soldado saiu arrastando uma mulher. Sobre meus olhos paralisados o soldado disparou com uma pistola diretamente sobre a cabeça da mulher.
O soldado seguinte saiu da casa arrastando uma garota pequena pelos cabelos. A pobre garota se debatia e chorava bastante. Havia sido dela o choro que eu escutara há pouco.
Por instinto e usando de velocidade sobre humana parti de encontro ao militar.
O homem nada pode fazer. Minha agilidade não poderia ser igualada por um ser normal. Em um ou dois segundos seu pescoço estava cortado e sua arma caída ao solo. Já o outro soldado teve mais tempo e sorte. Ouvi o som dos disparos secos e senti as penetrações dos projéteis na minha carne.
Atire-me ao chão e fingi-me de morto. Temendo pelo pior observei a pequena e indefesa garota chorando jogada ao lado do soldado já morto. Eu precisava de tempo para me restituir e tempo é o que eu não teria naquele momento.
--- Idiota! Morrer por essa gente.
O soldado perdeu o interesse por minha pessoa e felizmente nem ligou mais para a garota. Desapareceu na neblina da noite em meio ao caos.
Com esforço levantei-me e segurando a menina perguntei:
--- Tem mais alguém na casa?
A menina não aparentava ter mais que seis ou sete anos. Estava com o rosto e as roupas bem sujas. Se não fosse pelo vestido e pelos cabelos compridos eu não a reconheceria como uma garotinha.
A menina não parou de chorar. Estava em profundo estado de choque. Segurando-a e ao mesmo tempo em que olhava pela porta da casa falei em tom quase gritando:
--- Tem mais alguém aqui?
Na semi-escuridão pude distinguir dois outros corpos. Sempre segurando a garota chorando entrei e no corpo de um homem adulto, ainda quente, retirei a alimentação e a força para me regenerar. O outro corpo pertencia a uma garota, mais velha que a menina que eu tinha em meus braços, talvez doze ou treze anos, era difícil dizer.
Mais um pouco e atingi minha plena força. A garota já quase não chorava e estava semi dormente em meus braços. Concentrando-me usei um de meus poderes e nos tornei imperceptível aos sentidos dos mortais.
Com um pouco de pressa levei a pequena a minha casa e depois ao porão, meu verdadeiro lar. Mesmo se a casa fosse invadida seria muito difícil encontrarem a entrada para o porão.
Decidi por abandonar Moscou o mais rápido possível. Eu teria que contatar a sociedade rapidamente. Outros também poderiam estar planejando abandonar a cidade.
Meu lar era fracamente iluminado. É suficiente para um vampiro, mas a penumbra incomodaria um mortal. Já fazia algum tempo que ninguém vivo entrara na minha casa.
A garota estava dormindo. Ajeitei-a num colchão que era a minha cama e pude pensar com calma o que fazer. Eu não teria como protegê-la quando o dia chegasse e não teria como mantê-la no porão.
Amaldiçoei-me por não ter um lacaio. Sempre fui um solitário por natureza e não aprecio a presença de mortais para proteção e servidão.
Não havia escolha. Com delicadeza acordei a garota e falei:
--- Meu nome é Bill, você me compreende?
Meu russo não era dos melhores, mas era compreensível apesar do sotaque forte. Eu era imediatamente reconhecido como estrangeiro em qualquer lugar.
A garota me olhou com olhos vazios, quase desprovidos de emoção. Ela possivelmente ainda se encontrava em estado de choque ou algo assim. Novamente insisti:
--- Eu sou Bill, Bill Thorn. Essa é minha casa, aqui você está protegida. Qual é o seu nome?
A pequena me olhou por um breve instante, mas logo retornou ao seu estado de silêncio. Ela ficou um pouco nesse estado, mas seus olhos devem ter se acostumado à escuridão parcial, pois ela olhou para o local onde nos encontrávamos e novamente começou a chorar.
Um pouco sem paciência falei:
--- Eu não estou acostumado a crianças, nunca tive um filho, se você não me ajudar eu não poderei ajudá-la.
A garota pareceu compreender em parte e permaneceu num choro fraco. Eu insisti:
--- Qual é o seu nome?
Em alguns instantes ela respondeu numa voz fina, quase sumindo:
--- Cathrin.
--- Bom, Cathrin, eu vou tirar você daqui. Você tem algum parente, avós, algum tio ou tia?
A pequena mergulhou nos seus pensamentos e pouco depois disse, dessa vez com a voz um pouco mais firme:
--- Tenho o Tio Vlast e a Tia Meg.
--- E onde eles moram?
--- Não sei. Mamãe sempre me levava lá, mas não sei chegar sozinha. É fora da cidade.
A garota era muito nova. Se a cidade estivesse mais organizada seria possível descobrir outros moradores da casa da menina ainda vivos, conversar com os vizinhos entre outras coisas, mas no caos atual isso seria impossível.
Eu jamais teria coragem de abandonar Cathrin. Eu a salvara da morte certa e me sentia responsável pela pequena. Eu nunca havia ouvido falar de um vampiro cuidando de uma menina mortal, mas isso teria que ser feito, pelo menos por algum tempo.
A pequenina estava com sono, mas seria arriscado deixá-la na minha casa. Embora o subterrâneo oferecesse certa segurança, à parte superiora poderia ser invadida a qualquer instante.
Cathrin novamente estava adormecendo em meus braços. Concentrando-me nos tornei novamente invisível aos humanos.
Com calma deixei minha residência. Provavelmente eu nunca voltaria a vê-la. Mas minha casa de verdade se encontra em Paris. Minhas antiguidades que representam fases da minha pós vida, minha biblioteca, meus negócios, entre outras coisas.
Andando pela rua acompanhei o sofrimento da população. Com certeza essa revolução deixaria sua marca na história da Rússia.
Logo cheguei ao refúgio de Alexander. Meu amigo que não me faltaria nessa hora.
Ainda faltavam algumas horas para o dia raiar, mas eu não esperava mais voltar para casa. O refúgio de Alexander oferecia uma proteção melhor.
Atravessei o portão da casa de Alexander, um casarão antigo e velho, que pertencia a Alexander há muitos anos. Na escuridão do quintal nos tornei visíveis novamente. Chegando a porta principal de sua casa bati fortemente esperando ser logo atendido.
Apenas na segunda vez que bati um de seus lacaios abriu a porta cuidadosamente e me vendo disse:
--- Entre logo Sr. Thorn. Podem tentar tomar a casa a qualquer hora.
Entrando percebi outros lacaios e muitas armas na casa. Alguns vidros se encontravam quebrados e a sala estava uma bagunça com móveis afastados e encostados nas paredes. Já devia ter ocorrido uma tentativa de invasão na casa, repelida a sangue e fogo.
A figura nervosa de Alexander apareceu rapidamente e disse:
--- Eu já estava pensando em enviar um de meus lacaios à sua casa, mas você tem mais condições de defesa que eles. Sua casa foi invadida?
--- Não, ainda não, mas já pode ter ocorrido. Não tenho nada de valor por lá.
--- Fique aqui, por enquanto estamos em segurança.
Só nesse instante ele percebeu a criança em meus braços. Hesitou por um momento perplexo e depois disse:
--- O que faz com essa criança?
Eu não sabia se Alexander compreenderia. Era difícil até para eu mesmo compreender. Com calma e pausadamente respondi:
--- Eu salvei essa garota. Soldados mataram sua família. Não posso abandoná-la agora.
--- Você ficou louco!!! Ela é uma criança e você um vampiro. Ela não passa de alimento, só vai lhe trazer problemas. Arrume um mortal qualquer para cuidar dela. Vou entregá-la a um dos meus empregados.
--- Não posso deixá-la nesse caos. Quero deixar Moscou e levá-la comigo.
--- Isso é loucura. Aqui você tem o apoio da sociedade, logo nos reorganizaremos e estaremos em segurança. Para qual cidade pretende ir? Não esqueça que a guerra ainda não terminou, a Europa está afundada na guerra, a França invadida, uma questão de tempo para que a Alemanha tome toda a Europa.
--- Não sei ao certo, talvez para o interior da Rússia. As coisas devem estar mais calmas por lá.
Ele pensou algum tempo. Seus lacaios estavam em posição, a fim de defender a casa, mesmo que isso custasse suas vidas. Por um instante lamentei não ter lacaios em Moscou. Praguejando ele disse:
--- Droga Bill, você vai fazer besteira. Seria arriscado viajar de forma convencional, não adianta que eu lhe empreste lacaios. Pensou na hipótese de viajar nas noites? Durante o dia você teria que encontrar um local para se proteger da luz, rezando para não encontrar entidades hostis a nossa espécie.
--- É a melhor forma. Cathrin dormirá de dia e viajará a noite comigo.
--- Quando o dia amanhecer três de meus lacaios vão levar vocês o mais longe possível, até que a noite caia novamente. Depois vocês estarão por sua conta. É tudo que posso fazer.
--- É mais do que posso pedir. Tenho muito que lhe agradecer. Devo muito a você.
--- Não, eu que lhe devo demais. Eu estaria morto na França sem o seu auxilio.
Não houve mais tentativas de invasão na casa. Acordei a pequena garota e mantive-a o mais acordada possível. Infelizmente eu a forçaria a ficar acordada todas as noites, o êxito da viagem dependeria disso. Eu não poderia cuidar dela durante o dia.
Logo fomos alojados numa carruagem e me despedi de Alexander. Não sabia quando voltaria a Moscou.
Os primeiros raios do dia estavam para surgir e dei a última olhada para Moscou. Nesse instante percebi que eu não voltaria tão cedo àquela cidade. Aquele país não se recuperaria tão cedo de tamanha devastação e violência. Talvez em algumas décadas, quem saberia...

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