domingo, 5 de setembro de 2010

A Pintora

Fernando Firpo

Eu nunca havia pensado em viver no Brasil. Minha vida está na Europa.
Há algumas semanas havia acontecido a Primeira Feira Internacional da Eletricidade em Paris, tecnologia que mudaria o mundo.
Eu estava vivendo em Paris já há algum tempo. De tempos em tempos eu volto a viver em Paris. É muito estranho acompanhar a evolução da cidade, ver que as velhas casas darem origens a novas, ver as pessoas que um dia foram crianças e hoje são adultas. São aspectos da imortalidade que nunca vou me acostumar.
Um vampiro tem que desaparecer de vez em quando, simular uma morte, mudar de nome, coisas assim. Depois de alguns anos no mesmo local, as pessoas começam a estranhar o não envelhecimento, os hábitos de nunca lhe verem de dia, entre outros detalhes. Isso no geral leva os vampiros a se tornarem seres solitários e amargurados.
Um estereotipo que muitas vezes adoto é o de ser um escritor excêntrico que dorme de dia e escreve à noite, mas já tive muitas outras profissões noturnas.
Eu estava em visita a Senhorita Anne Pardo, uma talentosa jovem pintora. Suas obras mórbidas chamaram a atenção da sociedade Toreadora de Paris e eu fui conferir suas obras. Sra. Anne Pardo é a única filha da viúva de um rico industrial. A Sra. Suzan Pardo, a viúva,  não soube dar continuidade aos negócios e elas estavam quase falidas.
Já era quase certo que a Pardo filha seria transformada num de nós. Estava apenas sendo aguardada uma autorização superior que deveria sair em alguns dias.
--- Então, o que achou Sr. Vince?
Fui tirado de meus pensamentos e prontamente respondi:
--- Excelentes obras Senhorita Pardo, nunca vi tamanha profundidade. A senhorita é tão jovem para impregnar tanto sofrimento e morbidez aos seus quadros.
Sua mãe, sempre protetora, se intrometeu dizendo:
--- Minha filha tem muita imaginação e talento. Estamos aguardando a resposta sobre sua primeira exposição. Mais vinho Sr. Vince?
--- Não, obrigado.
Nos sentamos. A mansão era muita bem decorada e a sala onde estávamos, provisoriamente transformada como sala de exposição, era muito aconchegante, com uma formalidade presente continuamente no ar.
A Senhorita Anne não deixava de me impressionar, uma jovem calada, com um rosto ao mesmo tempo belo e misterioso. Em termos mortais eu seria apenas uns dois ou três anos mais velho que ela, pois minha aparência é de uns vinte e quatro ou vinte e cinco anos, mas a aparência nada significa para um imortal.
A Sra. Suzan disse:
--- Nós vivemos na mesma rua, mas excetuando algum acontecimento social quase nunca o vi. Não sai muito de sua residência, não é mesmo?
Não era a primeira vez que eu escutava esse tipo de comentário, que às vezes chegava diretamente como uma pergunta. Com naturalidade respondi:
--- Meus pais vivem no interior da França, eu não tenho família aqui em Paris e me dedico muito aos estudos. Gostei bastante das obras, com certeza visitarei a exposição.
A garota foi falar alguma coisa, mas foi interrompida pela mãe que disse:
--- Ficamos muito contentes com isso Sr. Vince. Haverá uma ópera na próxima Quinta-feira, infelizmente outros compromissos me impedirão de ir e estou relutante em deixar Anne ir sozinha, poderia ter a honra de deixá-lo acompanhá-la?
Com ironia percebi a tática da mulher. Deveria estar interessada em arranjar um casamento para a filha, ou ao menos conseguir financiamento para expor as obras dela. Eu era o milionário perfeito e solteiro que poderia solucionar os problemas, pelo menos era isso que ela acreditava.
Antes que eu respondesse três homens abriram a porta e sem cerimônias entraram na sala. A mãe da garota ficou perplexa por um momento, até que o homem do meio, figura conhecida minha, disse:
--- Fiquem quietinhas e não se movam.
Um mortal ficaria surpreso, pois foi exatamente o que elas fizeram, continuaram sentadas imóveis e em silêncio. Nervoso eu fui reclamar, mas o homem se antecipou e disse:
--- Você é um idiota, não deveria estar aqui.
--- Como eu saberia que seria hoje? A autorização não sairia somente em mais alguns dias?
--- Saiu antes do esperado. Hoje essa brilhante artista terá sua passagem para a eternidade. Eu irei torná-la um vampiro.
--- Droga, eu fui visto entrando aqui, terei problemas com a polícia.
--- Não, já está tudo organizado. Os empregados e também a mãe da garota dirão que você foi embora normalmente. A garota foi se deitar como faz todos os dias e ninguém vai ouvir nada de anormal durante a noite. Amanhã seu quarto irá amanhecer revirado, janelas quebradas, com a cama suja de sangue e a garota desaparecida. Nunca irão encontrá-la, não como uma mortal. É possível que a polícia lhe faça alguma pergunta, mas nada mais que isso. Interferiremos se a situação assim o necessitar.
Irritado falei:
--- Façam bom proveito dela então, eu vou embora.
--- Ainda não, não cheguei na melhor parte.
Perguntei bastante desconfiado e descontente:
--- Que melhor parte?
--- Você irá cuidar dela, lhe ensinará sobre o que é ser um vampiro, sobre a sociedade, e tudo que ela precisa saber.  Depois você a introduzirá na sociedade de Londres, sei que tem uma estrutura lá. Ela viverá uns dez ou quinze anos por lá, talvez mais ou menos, e no futuro retornará para Paris.
--- Você está louco? Eu tenho outras responsabilidades, não posso cuidar de uma novata.
--- Isso já foi decidido, eu discordo da decisão, mas a explicação é que você é o mais indicado e de confiança para essa função. O talento da garota é muito raro, ela não pode ser ensinada por qualquer um.
--- Se não tem outro jeito... Levem-na à minha casa. Quando vocês chegarem meus lacaios já terão aprontado a casa para recebê-la.
Antes de deixar a sala e posteriormente a casa dei uma última olhada com tristeza para a garota e sua mãe. Seria a última vez que eu olharia para a garota como uma mortal. Mais uma família seria dividida em nome da sociedade.
Logo deixei a casa calmamente e procurando ser natural. Talvez alguém me visse saindo e reforçaria meu álibi.
Pouco depois cheguei a minha casa. Uma mansão não tão grande como a casa da Sra. Anne, mas que atende muito bem minhas necessidades. A casa foi construída a uns trinta anos a mando meu. No meu quarto não entra nem uma ponta de luz e existe um vasto espaço secreto subterrâneo para emergências. Minha antiga mansão já estava ficando velha, o terreno foi vendido e a mansão demolida.
Dei ordem expressas aos meus dois lacaios para receberam a garota e me avisarem assim que ela fosse deixada. Uma sala no subterrâneo serviria de quarto para ela inicialmente.
Os demais empregados da casa desconheciam a existência de vampiros, eram apenas mortais contratados que dividiam funções como limpar a casa, cuidar do jardim, e outras coisas. Os lacaios cuidavam das partes secretas da casa e serviam de segurança durante o dia.
Eu estava lendo um livro na privacidade do meu quarto quando Jack bateu a minha porta e entrando disse:
--- A Sra. Anne foi deixada na sala definida.
--- Ela está consciente?
--- Não, ainda não.
--- Obrigado, pode se recolher.
A sala onde ela estava é totalmente a prova de sons. Mesmo dentro da casa possíveis gritos dela não seriam ouvidos.
Eu sabia o que ela sentiria quando acordasse, presenciei isso ocorrer algumas vezes. Eu passei por isso há muito tempo atrás, mas não podia lembrar dessa experiência. Não existe dor pior para um vampiro que sentir sede.
Com calma desci para o subterrâneo. Possivelmente ainda levariam algumas horas para Anne acordar.
Eu tenho sangue humano armazenado, mas acho difícil que ela beba logo no início. O problema é que a fome se torna insuportável, nesse ponto um vampiro mata uma pessoa sem ao menos se dar conta disso, e pode até matar outro vampiro.
Cheguei à sala e destranquei a porta. Entrei e tranquei novamente a porta.
O quarto era pequeno, nele estavam uma cama, uma mesinha, um armário e um sofá. Como estávamos abaixo no nível da casa, não havia janelas e a luz natural não entrava por nenhum lugar. Havia apenas uma lamparina de petróleo em uma pequena mesa. Alguns vampiros enxergam bem no escuro, outros não.
Sentei no sofá e com paciência esperei.
Ela levou muito tempo a acordar. Pelas minhas contas já estava amanhecendo. Ela mexeu o braço, balançou a cabeça e se levantando devagar disse:
--- Que lugar é esse? Onde estou?
Permaneci em silêncio por um tempo. As perguntas dela eram mais que justas.
--- Onde estou? -- ela repetiu.
--- Não se preocupe, você está em segurança.
--- O que você fez? Estávamos agora mesmo conversando na minha casa. Eu me sinto estranha, meu estômago está embrulhado.
Ela estava fraca ainda, o que era natural. Após se alimentar ela ficaria muito mais forte, mas não estava na hora ainda.
--- Você vai se sentir melhor logo. Não sei por onde começar.
--- Isso é um seqüestro Sr. Vince?
A garota estava bastante assustada. Provavelmente nunca havia se afastado muito das asas protetoras da mãe.
--- Não, você está aqui para sua própria proteção. Pode me chamar de Bill. Você conhece as lendas sobre vampiros?
--- Conheço. As criaturas que bebem sangue. Eu li Drácula.
--- Sim, essas mesmas.
--- Quando serei libertada. Minha família não tem muito dinheiro, você deve ser muito mais rico que nós Sr. Vince.
Como explicar liberdade à garota. Ela morreria assim que saísse ao Sol.
--- Você vai ter que me acreditar Anne, você morreria se deixasse minha casa agora.
--- Então estamos na sua casa? Isso é uma ameaça?
Soltando uma inapropriada risada falei:
--- Não, é a realidade. Você está com fome?
Mal terminei a frase e Anne começou um intenso berreiro pedindo socorro. Aquilo era uma atitude esperada.
Ela berrou por uns cinco minutos e começou a ficar rouca. Também começou a chorar.
Durante todo o tempo fiquei em silêncio. De nada serviria se eu tentasse impedi-la. Ela teria que aprender algumas coisas por si própria.
A garota chorou até cansar. Seus olhos estavam inchados, mas a garota era forte. Voltou a insistir:
--- Quando serei libertada?
--- Você irá aprender algumas coisas. Há algum tempo que não lido com novatos, farei o melhor que puder. Sua arte chamou a atenção de algumas pessoas.
--- Minha arte, você se refere as minhas pinturas?
--- Sim. Você terá muito tempo para se dedicar a elas de agora em diante. Você foi uma escolhida pela sua arte.
Ela ficou perplexa por alguns instantes. Acho que a cada momento ela entendia menos, o que de modo algum era minha intenção, mas como dizer diretamente no que ela se tornara.
Com paciência expliquei:
--- Eu fui incumbido de ensiná-la agora no início. Depois você deixará Paris e iniciará vida nova em outra cidade, fora da França. Você tem muito a aprender.
--- Não estou compreendendo Sr. Vince.
Resolvi chegar logo no ponto. De nada adiantaria relutar por mais tempo sem contá-la a verdade.
Passei meus olhos no quarto. Ela só poderia deixá-lo quando estivesse convencida e consciente da sua situação, ou haveria o risco dela imediatamente deixar a casa.
Eu mesmo nunca havia tido o privilégio de ter meus ensinamentos básicos. Aprendi das piores formas possíveis, me queimando ao Sol, sendo torturado pela fome, agredido por outros semelhantes e muitas outras coisas.
--- Bom Anne, existem mais criaturas sobre a Terra do que os mortais. Os mortais são a grande maioria, disso não existe dúvida, mas existem outros seres, conhecidos ou não apenas em lendas e histórias humanas. Eu sou um desses seres, um vampiro.
Ela ficou calada e seu rosto revelava algum espanto. Acho que ela estava em dúvida se começava a rir ou a chorar. Eu mesmo na mesma situação que ela acreditaria estar em frente a um louco.
Com um sorriso ela me surpreendeu ao dizer:
--- Muito engraçado Sr. Vince. Você é um louco ou está simplesmente fazendo uma gozação?
--- Eu não sou um louco. Infelizmente devo afirmar que isso é verdade.
Ela deixou de sorrir e disse:
--- Digamos que isso fosse verdade, então existem montes de vampiros atacando nas noites de Paris.
--- Não chegam a ser um monte, uma insignificante parcela da população. Na verdade quando fui a sua casa foi apenas para conhecê-la, eu desconhecia que isso ocorreria imediatamente, achei que ainda levariam alguns dias e quis conhecê-la pessoalmente.
Seu rosto voltou a ficar deprimido. Ela voltou a se preocupar com a prisão forçada. Aproveitei e fiz a revelação.
--- E agora você também é uma vampira.
Ela nada fez. Sua fisionomia não mostrava alegria, tristeza, dor, nada. Ela simplesmente permaneceu parada.
Pouco depois colocou sua mão sobre o coração. Procurou um pouco por um batimento cardíaco que não existia e começou a chorar.
Suas lágrimas vinham de um desespero profundo e lamentei não poder fazer nada. Eu poderia manipulá-la e fazê-la parar de chorar e permanecer calma, mas isso não teria validade alguma. Mais útil seria ela enfrentar a realidade completa.
Alguns instantes depois Anne disse, contendo-se e derrubando apenas algumas lágrimas:
--- O que você fez? Não sinto meu coração. Meu corpo está frio. Isso não é possível! Que espécie de demônio eu sou?
--- Não exatamente um demônio, mas um vampiro. Você pode sentir medo, dor, amor, ainda existe muita humanidade em você, não se considere um monstro.
As lágrimas continuavam a correr pelo seu rosto. Eu permaneci sentado e calmo, Anne se levantou, ainda se sentindo fraca, e ficou próxima de mim.
Senti vergonha quando ela, bem próxima, se ajoelhou e fixou seus olhos na altura dos meus. Alguns dizem que podem enxergar séculos de sofrimento na profundidade dos olhos de um vampiro. Eu podia enxergar vida nos olhos de Anne, vida que não queria se extinguir.
--- E minha mãe, o que foi feito dela?
--- Não se preocupe com ela. Está viva. Para ela você desapareceu durante a noite e nunca será encontrada. Ela nunca saberá exatamente o que lhe aconteceu. Nunca existirá um corpo para a sua morte. Obviamente você nunca poderá vê-la, não se deseja que ela continue viva.
Ela ficou em silêncio por um momento. Depois disse:
--- Foi você que me mordeu?
--- Não. Apenas fui escolhido para ensiná-la em seus primeiros passos da sua nova vida. Mas você é uma semelhante a mim, posteriormente saberá mais.
Achei estranho vê-la respirar. Aquilo era um reflexo que ainda existiria nela por algum tempo.
--- Eu vou dormir. Descanse, mais tarde, à noite, você precisará de suas forças. Terá mais a aprender. Pedirei para alguém lhe trazer água, ela não vai lhe satisfazer muito, infelizmente não posso deixar que coma, isso lhe faria mal.
Conformada ela se deitou sobre a cama e eu deixei o recinto, trancando cuidadosamente a porta. Eu também estava cansado e já era de manhã. Quando o Sol desaparecesse no horizonte eu novamente estaria ativo, mas até lá dormiria o sono, a suspensão dos sentidos vampírica.

No começo da noite fui para o dormitório provisório de Anne. Jack havia deixado com ela um jarro de água conforme instruções minhas e ela esteve durante todo o dia sem nenhum alimento. Poderia ser arriscado alguém entrar no quarto, principalmente um lacaio, Anne a qualquer momento pode perder o controle e matar a procura de sangue.
Assim que entrei senti o forte cheiro de mofo presente no quarto, que havia passado o dia trancado. Anne estava acordada e sentada sobre a cama. Seu cabelo estava despenteado e o rosto muito pálido e sujo. Ela não lembrava mais a bela garota que eu conhecera antes.
Assim que entrei no recinto ela se mexeu na cama. Estava confusa e hesitante em me atacar. Ela estava faminta, mas não o bastante para fazer uma besteira. Mais um ou dois dias e ela mataria a própria mãe para beber seu sangue.
--- Espero que tenha passado bem o dia Anne. Temos muito mais a aprender.
--- Eu só quero a minha vida de volta.
Triste e com sinceridade falei:
--- Infelizmente não é mais possível. Você não mais é uma mortal, isso não pode ser mudado. Não envelhecerá mais, a luz do Sol a matará em alguns instantes, não deve tentar comer alimentos humanos, somente sangue humano ou animal. Esqueça besteiras de lendas como alho e cruzes, isso não lhe fará mal, mas muito cuidado com uma estaca no coração, isso a imobilizará. O fogo pode matá-la.
Deixei que ela absorvesse as minhas palavras e continuei:
--- Você terá regras e leis a cumprir, e as penas para o descumprimento é a morte final, ou se preferir, a sua destruição como vampiro. Nós somos uma grande organização dividida por cidades, você terá um mestre a quem deve respeito e obediência. Respeite as regras e você não será morta e será protegida. Está compreendendo?
Com extrema raiva ela respondeu:
--- Sim, eu estou entendendo. E minha vida, família e amigos, não poderei mais vê-los?
--- Não. Isso traria muitas complicações. Você nem irá permanecer em Paris, breve irá para Londres e se estabelecerá por lá. Talvez em uns dez ou vinte anos possa retornar a Paris, quando os riscos de você ser reconhecida desaparecerão. Sua família é conhecida e tradicional. Você morreu Anne, esse fato não será mudado.
Ela deixou escorrer uma discreta lágrima pela extremidade de um de seus olhos, mas se manteve firme. Ela era forte e estava ficando mais forte a cada momento. Com o tempo superaria o trauma. Talvez um dia me perdoasse.
Anne deu algumas voltas caminhando pelo quarto. Olhou a porta algumas vezes, mas calculou de forma correta que não poderia fugir. Logo voltou a sentar-se na cama e disse:
--- Quando vou sair desse quarto? Eu preciso de um banho e de roupas novas.
Ela usava uma camisola desde que havia chegado. Eu já havia ordenado que meus lacaios comprassem algumas roupas para ela e isso já havia sido feito.
Sorrindo falei:
--- Sairemos agora mesmo. A casa está vazia, teremos total privacidade. A casa dos empregados fica próxima, se você começar a gritar terei que feri-la, espero que isso não se torne necessário. De forma alguma posso permitir que chame a atenção.
Abri a porta e com toda a calma falei:
--- Por favor ...
Ela saiu devagar, como que temendo que aquilo fosse alguma brincadeira ou que algo fosse molestá-la.
Vagarosamente andamos por um corredor com portas fechadas e fracamente iluminado. Aquela era a parte secreta e subterrânea da casa. Havia uma passagem que levava a um local afastado do jardim, e que poderia servir como rota de fuga em caso de uma emergência.
Subimos por uma escada e saímos num pequeno quarto de livros. A passagem secreta para o subterrâneo ficava atrás de uma estante e seria muito difícil de ser descoberta, mesmo que a estivessem procurando.
O pó do local fez Anne espirrar, o que me surpreendeu e me fez lembrar mais uma vez que a garota ainda tinha seu instinto da respiração.
Fomos até a sala principal da casa. No caminho fui mostrando a minha residência para Anne, pois não sabia quanto tempo ela ficaria. Também me lembrei que os empregados não poderiam ver minha hóspede, talvez eles tivessem algum contato com a casa da mãe de Anne e pudessem reconhecê-la.
Anne olhou por um longo tempo pela janela em silêncio. Temi que ela fosse gritar e me forçar a tomar medidas rápidas, mas ela nada fez. Logo deu um suspiro longo e afastando-se da janela disse:
--- Achei que nunca mais veria a liberdade. É uma pena que não possa enxergar a minha casa daqui. É estranho, mas a noite está diferente, mais atraente.
Pensando falei:
--- Seus sentidos estão diferentes, mudados. A noite é o seu elemento. Você tem muito a aprender, gostaria que você prendesse sua respiração.
--- O que???
Ela ficou olhando-me com estranheza. Seu rosto em dúvida perguntava o significado das minhas palavras, mas eu nada disse.
Vendo que não obteria uma resposta a garota fez o que eu disse.
Um, dois, três, ... os minutos correram. Acho que a cada minuto ela ficava mais surpresa. Percebeu que não tinha a menor necessidade de respirar. Então eu falei:
--- Pode voltar a respirar. Na verdade quero que você volte a respirar.
A surpresa de Anne foi maior ainda quando ela percebeu o quanto foi difícil voltar a respirar. Seu organismo não queria responder as ordens de seus músculos peitorais. Com a maior calma eu expliquei:
--- É muito importante que você possa se passar por uma mortal e cada vez mais isso se tornará mais difícil. Aos poucos você deixará de respirar, isso é inevitável. Existem outros detalhes que seu corpo mudará. Você deve sempre que possível treinar voltar a respirar, isso será útil para você. Também existem técnicas que a permitirão que você ingira alimentos e líquidos e vomite depois. Até é possível fazer o coração bater. Fique muito tempo sem sangue e sua pele ficará mais pálida, quando bem alimentada sua pele terá uma aparência quase normal.
--- Aquele dia que você esteve em casa eu jamais diria que você não era um humano normal.
Repensei o quanto à pequena ainda teria a aprender. Na verdade minha função seria lhe passar os primeiros ensinamentos, ela ainda teria longos anos de aprendizado pela frente.
Eu não sabia quem seria seu mestre em Londres. Dependendo de quem fosse, ela ainda teria muitos anos de sofrimento em sua existência. Mas sendo-me possível, eu a colocaria com um bom mestre.
--- Você está com fome? Eu tenho sangue aqui na casa, mas não sei se você está preparada.
Ela demorou a responder. Deve ter avaliado sua fome e sabia que cedo ou tarde teria que beber sangue, por mais que isso pudesse lhe parecer repugnante. Levantou sua cabeça e com uma voz receosa disse:
--- Sim, eu quero sangue.
Eu demorei um pouco a reagir. A garota se mostrava muito mais corajosa do que eu esperava e com grande poder de decisão. Ela só necessitava se afastar dos cuidados protetores de sua mãe.
Fomos até a adega. Uma adega de vinhos é um bom lugar para armazenar sangue. É fresco e ao ver um líquido vermelho um empregado jamais imagina estar diante de sangue.
Pude perceber os olhos de Anne brilharem enquanto o líquido avermelhado escorria do barril para a taça de cristal. Estendi a taça a ela que rapidamente levou aos lábios e bebeu em poucos goles. Acho que temia não ter a coragem de ir até o fim.
Quando o êxtase de Anne passou percebi que a fisionomia dela mudara. Estava mais carregada, mais adulta, ela nunca mais seria a mesma. Com a voz até mais decidida disse:
--- Isso é incrível, maravilhoso, nunca experimentei sensação igual. Nunca imaginaria que sangue pudesse ser tão bom.
Sorri ao falar:
--- Agora você é uma verdadeira vampira, sua existência está ligada a sangue, seu prazer e sua essência são o sangue. O sangue humano bebido diretamente de seus corpos são os melhores, mas sangue pode ser estocado por algum tempo e você pode beber sangue de animais. Mas nunca beba sangue de outro vampiro, a não ser que sua vida dependa disso.
Ela ainda bebeu outra taça de sangue. Devia estar se sentindo mais forte, com certeza muitas novas sensações passavam pela cabeça da garota.
Essa segunda taça foi degustada com mais calma. Ela pareceu apreciar o prazer de cada gota do precioso líquido da vida. Terminando a taça ela perguntou:
--- De onde vem esse sangue?
--- Não sei exatamente. Às vezes de mendigos, às vezes de prostitutas, ou mesmo de uma pessoa que estava andando na rua. Mas é sangue humano. Vamos para a sala?
Nos instalamos novamente na sala de estar da casa. Ela mais uma vez ficou por algum tempo olhando pela janela, buscando uma vida num passado que já havia ficado para trás.
Eram muitas as perguntas que deviam estar incomodando Anne. Deixei que ela voltasse à realidade do momento. A garota começou dizendo:
--- Nas histórias de vampiros, sempre são seres cruéis e não humanos. Eu estou diferente, me sinto diferente, mas não me sinto mau, não sou cruel e não me sinto um demônio.
Precisei pensar para comentar aquilo. Os sentimentos e reações de vampiros são muito complexos e acredito que mais imprevisíveis que as humanas.
--- É um pouco complicado de explicar. Não se iluda, com fome você poderia matar até alguém que ama. Mas você tem sentimentos, pode amar, odiar, sentir remorso e até raiva. Só que com o tempo, esses sentimentos podem ir desaparecendo aos poucos, isso depende de suas atitudes, de sua força de vontade e das decisões que você tomar ao longo de sua existência. Você terá contato com vampiros bons e maus, alguns já não têm mais nada que você possa identificar como um sentimento humano.
Pegando-me de surpresa ela disse:
--- E você, tem sentimentos?
--- Em alguns casos... Procuro ser justo e tomar as decisões corretas. Mato sem remorsos se minha pós vida estiver ameaçada ou para proteger o segredo da nossa existência. Essa é uma das nossas maiores regras, nunca torne pública a nossa existência, mesmo que para isso tenha que matar ou cometer atrocidades.
--- Quantos anos você tem?
--- Ah, são muitos. Digamos que mais de cem anos. Não sou dessa época, nasci muito antes das pessoas que estão vivas hoje. Um dia o mesmo acontecerá com você, família, amigos, você saberá que todos já terão morrido há muito tempo. As pessoas mudarão, seu modo de falar, suas roupas, seus hábitos e costumes, tudo isso sofre alterações e você terá que acompanhar essas mudanças. É um perigo muito grande da imortalidade estagnar, não acompanhar as mudanças e a evolução.
Já era madrugada e em duas horas o dia nasceria. A magia da noite iria embora, deixando a vida do dia. Expliquei a Anne que seu quarto seria temporariamente no subterrâneo e que nenhum funcionário da casa, excetuando meus dois lacaios, deveriam vê-la. No final expliquei a ela:
--- Muito cuidado com o dia. A luz solar a matará em alguns segundos. O fogo também é uma ameaça séria, na verdade você descobrirá que o fogo a deixará aterrorizada. Uma estaca no coração não irá matá-la, mas a deixará completamente imobilizada até que a estaca seja retirada. A decapitação poderá matá-la. Esqueça o alho, água corrente, água benta, cruzes e outras besteiras, isso não lhe fará mal. Mas uma pessoa com fé forte, verdadeira, pode derrubá-la com mais eficiência que uma arma.

Por duas noites ainda Anne apenas ficou dentro de minha casa. Contei a ela algumas histórias sobre o meu passado, falei bastante sobre a sociedade vampírica, sobre a hierarquia e as lideranças da sociedade e muitas coisas que ela deveria conhecer.
Na noite do terceiro dia acordei Anne de seu sono no subterrâneo com um vestido formal muito bonito. Querendo lhe fazer uma surpresa falei:
--- Hoje é uma noite especial Anne, você ganhará sua liberdade parcial. Deixará a casa em minha companhia, iremos passear pelas redondezas.
Ela abriu um grande sorriso, como eu nunca havia visto desde que ela estava como minha hóspede. Mas com firmeza completei:
--- Em nenhuma hipótese você deve ser reconhecida, usará esse capuz que cobrirá parte do seu rosto. Por favor, não faça nenhuma irresponsabilidade, não quero ter que matá-la ou matar quem a reconhecer.
Eu já me encontrava vestido para sair. Deixei o aposento e Anne logo apareceu já vestida na parte superior da casa.
Anne estava linda naqueles trajes formais e escuros. Sua pele estava um pouco pálida, mas nada anormal naquela situação.
Minha residência se encontrava num bairro bastante rico de Paris. As ruas tinham apenas grandes casarões, na sua maioria afastados uns dos outros. Atravessamos o jardim, depois o portão e passamos a andar pela rua, na direção contrária da casa da mãe de Anne.
Não era muito tarde, mas mesmo assim a rua se encontrava bastante deserta.
A pequena recebia com prazer sua liberdade temporária. Olhava a noite com curiosidade através de seus olhos vampíricos.
Um homem de uma certa idade e bem vestido passou a alguns passos de nós. Eu não o conhecia, como também não conhecia boa parte dos residentes próximos. Ele continuou seu caminho na escuridão. Anne disse:
--- Você mataria friamente aquele senhor?
Eu não esperava uma pergunta como aquela. Pensei um pouco na resposta e falei:
--- Talvez. Se eu estivesse com muita fome, ou existisse uma razão para tal ato. Eu não saio matando pessoas.
--- E se eu quisesse me alimentar dele agora?
Pensei mais um pouco antes de responder:
--- Eu não gosto de fazer isso tão perto de casa. Existe como fazer com que ele aceite o ataque com uma certa naturalidade e depois esqueça o ocorrido, mas você ainda não tem habilidades ou conhecimentos para tanto. Se desejar realmente caçar isso pode ser arranjado.
Andamos mais algum tempo em silêncio. Anne segurou minha mão e senti sua pele fria.
Mais alguns passos e chegamos a uma praça próxima. Eu não gostava daquele local, não me sentia confortável junto à natureza.
Já os olhos de Anne ganharam um certo brilho e ela parecia poder se comunicar com as árvores.
Um cachorro passou próximo de nós rosnando e se afastou rapidamente. Aproveitei para interromper o silêncio e explicar:
--- Nós estamos fora do ciclo da vida, fora da natureza. Tome extremo cuidado, os animais sabem disso, eles sentem isso. Os cavalos se assustam com mais facilidade, os cachorros rosnam, é difícil, mas às vezes atacam. Já ouvi falar de pessoas que podem sentir nossa diferença, mas nunca confirmei esse fato.
--- Eu sempre gostei de animais, temos cachorros em casa.
Ela logo se calou. As velhas recordações deviam estar a atordoar a sua alma. Tomamos o caminho rumo ao nosso lar e logo estávamos novamente atravessando os jardins exteriores.
Ao chegar na casa tomei a decisão. Anne deveria ir embora. Eu não poderia dar a liberdade a que ela tinha direito vivendo ao lado de sua antiga casa e ela não poderia desligar-se de sua antiga vida. Chamando meus dois lacaios falei:
--- A garota deverá ser levada para Londres. Prepare uma caravana, contrate mão de obra, confio em vocês para completarem essa missão. Lembram-se da Madame Siname em Londres?
--- Sim, meu senhor, estive em Londres e fiz contato com ela a dois anos atrás.
--- A Sra. Anne deve ser levada a sua presença e lhe confiada à guarda. Vocês devem partir dentro de quatro noites. Vocês são meus homens de confiança, não me decepcionem. Coloco a vida dela em suas mãos.
Eu não havia reparado, mas Anne havia escutado a conversa. Quando meus lacaios deixaram a sala ela entrou.
Seu rosto angelical deixou escorregar algumas lágrimas discretas, mas ela se manteve forte. Uma força que a ajudaria a se manter viva e a aprender o necessário. Com uma voz doce, mas triste ela disse:
--- Achei que teríamos mais tempo.
Muito triste falei:
--- Infelizmente não. Não posso mantê-la aqui, o risco é grande. Eu já contribui com seus ensinamentos básicos, Madame Siname é uma vampira conceituada, é uma amiga de confiança e uma pessoa respeitável. Ela irá introduzi-la na sociedade londrina.
As noites seguintes foram de alegrias e tristezas. Foram de muitas conversas, muitos ensinamentos doados tanto de minha parte como da parte da inocente vampira.
A energia da vida é muito forte nos jovens vampiros, uma coisa que as velhas gerações já se esqueceram.
O momento da despedida infelizmente acabou por chegar. Muitas lágrimas foram derramadas por Anne. Mantive-me firme, mostrando uma frieza e falta de sentimentos que não existia, visualizando o vampiro inatingível. Ela disse suas últimas palavras:
--- Eu quero aprender e crescer muito, um dia retornarei por minhas próprias capacidades e decisões.
Derrubando a única lágrima em algumas décadas falei:
--- Espero que sim. Espero que cresça muito, aprenda muito, e um dia possa me perdoar.
Ela foi falar algo, mas não deixei e rapidamente ela foi levada à carruagem e pouco depois cruzou os portões da propriedade.
Madame Siname era uma pessoa rígida, mas justa, ela aprenderia e cresceria, disso eu não tinha dúvidas. Mas um dia haveria o momento que ela olharia para o seu passado, lembraria da vida que lhe havia sido tirada, do amor que lhe foi negado, da preciosidade da vida.
O destino ainda cruzaria nossos caminhos, como amigos ou como inimigos...

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