Fernando Firpo
Já fazia dois dias que eu recebera aquele telefonema e tive algum tempo para breves preparativos.
Uma suíte já se encontrava pronta para receber meu visitante e a principal autoridade da cidade já estava ciente da chegada de meu velho amigo.
Nunca é uma posição segura dirigir sozinho na estrada durante a noite, mas o deslocamento de São Paulo até o aeroporto internacional em Guarulhos é um percurso curto, só não realizado com menos tempo devido ao forte trânsito presente na cidade na maioria do tempo.
Cheguei ao aeroporto sem inconvenientes e deixei meu veículo na parte do estacionamento próxima ao saguão de desembarque internacional.
Muitas pessoas de diferentes nacionalidades estavam no local, em viagem ou recebendo parentes e amigos. Era possível diferenciar vários idiomas diferentes.
Eu esperava que em algum momento eu pudesse ser confrontado por outros vampiros ou por hostis, o aeroporto é um território livre com vigilância constante, mas nenhuma ocorrência estava iminente. Talvez eu já estivesse sendo vigiado.
Dirigi-me ao painel eletrônico com os horários previstos de desembarque naquele saguão. Percebi que o vôo estava apenas com vinte minutos de atraso e que em breve pousaria. Meu velho amigo Alexander Silove estava chegando de um vôo proveniente da Cidade do México onde ficou por dois dias, vindo de Berlin, Alemanha.
O tempo entre a comunicação do meu amigo e sua chegada, embora curto, possibilitou o levantamento de algumas informações. Eu sabia que a residência de Alexander numa cidade próxima a Berlin foi totalmente destruída num incêndio e que relatos dos vizinhos falaram de sons estranhos e alguns gritos no local, onde não existiram sobreviventes. Alexander comunicou para alguns membros da sociedade de Berlin para tomarem extremo cuidado, seus domínios haviam sido brutalmente invadido por mortais e que posteriormente enviaria mais informações.
O painel eletrônico informou o pouso do velho Alexander e algum tempo depois pude vê-lo ao longe aguardando sua bagagem. Seu aspecto aparentemente pouco mudou, embora já faziam mais de três décadas que não nos víamos.
Nosso último contato telefônico havia sido alguns dias antes da passagem do século vinte para o século vinte e um, Alexander estava temeroso das antigas profecias que mencionavam o final dos tempos vampíricos, fato que durante os dez anos seguintes se mostrou sem sentido.
Alexander pegou apenas uma pequena mala e dirigiu-se para a saída, na direção de onde eu me encontrava. Ele procurou –me, mas não tinha me localizado ainda.
O homem passou sem nenhum problema pela vigilância policial, sua bagagem era pouca e não chamava a atenção, e nesse momento me viu e sorriu discretamente.
Com passos firmes dirigi-se até mim, mas seus passos diminuíram e pude sentir que Alexander entrou em estado de alerta em uma direção próxima de mim.
Com rapidez olhei ao meu lado, para o ponto de desconfiança de Alexander, onde estavam três homens, visivelmente interessados na minha pessoa. Um deles eu já conhecia de outros encontros, e fazendo um gesto para acalmar Alexander eu falei ao homem:
--- Essa é uma operação normal de recepção de um visitante estrangeiro, espero que não exista nenhum problema, estamos em território livre.
Alexander chegou perto, estava curioso, ainda em estado de alerta, pronto para uma reação de violência se a situação assim o exigisse, mas aguardava o resultado das minhas palavras, as quais não compreendia, ele sabia que estava em terra desconhecida com um idioma desconhecido.
Com ironia o homem falou:
--- Nós estamos apenas nos certificando que sua passagem aqui transcorra sem inconvenientes.
Com um sorriso sarcástico eu respondi:
--- Que bom que seja assim, tenho certeza que ficariam bastante desapontados se um bando de tolos viola-se a trégua.
Os três homens viraram-se e com passos rápidos se afastaram. A trégua entre os sobrenaturais é mantida, mesmo com vários incidentes, já faziam mais de vinte anos. Os poucos lobisomens inteligentes que existem e que estão no poder sabem que uma estrutura social vampírica fraca abrirá as portas da cidade para inimigos.
Alexander olhou-me com curiosidade, aguardando uma explicação. Em muitos locais aquele encontro teria terminado num feroz combate entre vampiros e lobisomens, mas a situação havia sido decidida apenas com uma troca de palavras. Pedindo para Alexander me seguir comecei explicações, falando em inglês:
--- As estruturas sociais aqui no novo mundo são diferentes do que no velho mundo. Já faz algum tempo que existe uma trégua entre os sobrenaturais como forma de manter a cidade forte evitando conflitos internos desnecessários.
Mesmo dando explicações ao meu amigo mantive bastante atenção no caminho percorrido. Era possível que um conflito maior tivesse apenas sido adiado. O local mais benéfico para um ataque seria o estacionamento, mais vazio e menos vigiado que os grandes saguões do aeroporto.
--- A trégua tem possibilitado zonas livres como esse aeroporto, canal de entrada diária de muitos visitantes externos, que está em constante vigilância.
Alexander, parecendo também manter certa atenção e vigilância perguntou:
--- Como conseguem evitar atritos? Está na essência desses animais peludos caçar e matar vampiros.
--- Não é fácil, e eventualmente ocorrem conflitos, mas a trégua interessa a todos. Se a nossa sociedade cair, eles sabem que nossos inimigos irão invadir brutalmente a cidade, nesse caso todos perdem.
Saímos para o estacionamento e Alexander percebeu que minha tensão aumentou e meus passos aceleraram. Com desconfiança ele perguntou:
--- Espera um ataque?
Concordando em parte falei:
--- É possível, embora eu espero que não. Estou desarmado.
No geral os lobisomens são mais fortes que os vampiros e muito difíceis de serem enfrentados em combates corporais sem armas, mas Alexander é um vampiro antigo, um ancião, ele é capaz de combate corporal com um lobisomen, ganhando em força e agilidade.
Chegamos até o carro sem maiores inconvenientes e rapidamente deixamos o estacionamento rumo à cidade.
No caminho conversamos sobre como é a vida naquela megalópole do terceiro mundo que é a cidade de São Paulo e sobre a pós vida de Alexander em Berlim, mas nada conversamos sobre o incidente que havia trazido meu amigo. Esse delicado assunto ficaria para mais tarde, em esferas oficiais.
Alexander impressionou-se com os muitos edifícios da cidade e a grande quantidade de veículos nas ruas. Por mais de uma vez tive que explicar que São Paulo é a cidade que nunca pára, seja no período diurno, seja no noturno.
Logo chegamos ao meu apartamento, o último andar de um prédio sem grandes sofisticações, construído por ordem minha em uma das vidas anteriores que representei na cidade. Atualmente eu procurava levar uma vida não demonstrando grande poder aquisitivo, condição necessária para poder representar diferentes vidas como se fosse humano.
No elevador expliquei a Alexander:
--- Eu tive uma construtora que construiu esse prédio a cerca de quinze anos atrás, quando eu estava com um outro nome e em outra posição. Vivo aqui há quase um ano, tenho mais uns nove ou dez anos na vida que ocupo hoje.
Vampiros de aparência jovem não podem permanecer morando muito tempo num mesmo local, a não ser que vivam isolados da sociedade. O não envelhecimento acaba por chamar a atenção.
Abri a porta do apartamento e Suzana aguardava nossa chegada. Em um inglês ruim saudou Alexander:
--- Seja bem vindo.
Alexander olhou com curiosidade para Suzana, mas permaneceu sério, apenas fazendo um leve movimento com a cabeça.
Com educação apresente-ia:
--- Essa é minha jovem amiga Suzana, ela é moradora do apartamento vizinho.
Alexander perguntou com alguma desconfiança:
--- Ela é cria sua?
--- É uma velha história que contarei em outra ocasião, mas ela é de inteira confiança. Estava curiosa para conhecer um ancião, é a sadia curiosidade jovem.
Alexander sorriu e deixou a tensão passar. Acomodou-se no sofá e pela primeira vez desde que chegara pude sentir que ele estava tranqüilo e sentindo-se seguro.
O ancião sempre procurava manter sua existência cercada de servos mortais e outros vampiros e sempre estranhava que eu preferia manter uma maior solidão. Eu desconfiava que não conseguiria mantê-lo em maior discrição por muito tempo.
Alexander apenas enviou um e-mail depois que chegou. Não se interessou por fazer algum contato mais direto com alguém.
O simples apartamento contava com três quartos e instalei Alexander em um deles. O dia logo chegou, deixando para a noite seguinte outros compromissos necessários.
Continua...
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