quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Um problema de condomínio

Fernando Firpo


Gosto de olhar a cidade de São Paulo da varanda. A beleza do gigantesco tapete de luzes que avança até onde a vista alcança. Felizmente os edifícios próximos são mais baixos e minha residência é a cobertura, localizada no vigésimo terceiro andar.
Ainda era o início da noite, fazia pouco tempo que o Sol havia se recolhido e eu estava na dúvida se deveria procurar alimento mais fresco ou beber um pouco das minhas reservas.
Meus pensamentos foram interrompidos pela campainha do apartamento. A campainha era discreta e pela distância de onde eu me encontrava um mortal não teria escutado, mas meus sentidos vampíricos, além de escutar a campainha, eu sabia que existia uma mulher atrás da porta.
Logo meu mordomo se aproximou na sacada, pediu licença e disse:
--- Desculpe incomodá-lo Mister Thorn, mas a Sra. Sandra, síndica do condomínio, deseja falar com o senhor.
Imaginei o que aquela mulher desejaria comigo. Eu mantenho um contato mínimo com os outros moradores, mas já tínhamos entrado em desacordo uma vez, devido a uma festa que promovi na minha residência e uma geladeira ter sido arremessada do meu apartamento para o pátio do edifício, um acidente sem maiores conseqüências.
Desisti de tentar adivinhar e me dirigi até a sala de estar, de encontro à mulher.
Logo eu estava frente a frente com a síndica. Uma empresaria de quarenta e poucos anos que aparentava ser mais velha. Ela vestia roupas sociais e sempre estava com uma fisionomia que indicava que estava em guerra com o universo.
Eu tinha um dossiê sobre todos os moradores do prédio, por motivos de segurança. Sabia que a síndica era viúva, dona de fábricas têxteis que no auge e com seu marido a frente dos negócios renderam muito dinheiro, mas que atualmente estão em séria crise financeira.
Após um breve comprimento perguntei diretamente:
--- Em que posso ajudá-la Sra. Sandra?
A mulher talvez não esperasse uma pergunta direta tão rápida, demorou um pouco mais do que seria normal para responder, mas logo disse:
--- O senhor deve saber que teremos uma reunião de condomínio daqui a três dias.
--- Na verdade meu assessor é que cuida desses detalhes, não estou a par.
Ela demonstrou uma breve decepção, mas continuou:
--- Bem, é uma reunião importante. Como o senhor sabe, os dois apartamentos abaixo do senhor estão vazios. A construtora permaneceu como proprietária deles, nunca alugou, vendeu ou fez algo com eles, sempre pagou suas obrigações em dia, mas deixou os apartamentos como estão.
Eu sabia que os apartamentos estão vazios, afinal eu sou o dono da construtora, ou na verdade eu sou sócio principal do grupo de empresas britânicas que é dona da construtora britânica que é a sócia majoritária da construtora no Brasil. Não queria vizinhos próximos que pudessem em algum momento invadir a minha privacidade.
--- É um direito do proprietário Sra. Sandra. Talvez a construtora tenha outros planos para os apartamentos.
--- Talvez, mas existem leis contra apartamentos vazios. Queremos entrar na justiça contra a construtora pedindo a venda ou locação desses apartamentos. Gostaria de pedir o seu voto na assembléia onde decidiremos essa questão.
Nem pensei muito para responder:
--- Sinceramente Sra. Sandra, eu não estou preocupado se os apartamentos inferiores ao meu estão ou não ocupados. Não me interesso o que a assembléia irá decidir, mas acho que cada um deveria se preocupar com a sua vida, e não com um ou dois apartamentos vazios. Algo mais necessita da minha atenção?
Bastante irritada, mas disfarçando suas emoções, a mulher disse:
--- Não, nada, passar bem.
--- Igualmente.
A mulher deixou rapidamente a sala, visivelmente contrariada e acompanhada pelo meu mordomo. Logo estava fora do apartamento.
Mesmo que eles entrassem na justiça isso não me preocupava. A justiça no Brasil é lenta, eles ficariam durante anos brigando, com uma forte possibilidade de perder ou desistir. De qualquer modo mandaria meu assessor votar contra as medidas. Também pedirei que um representante da empresa compareça a reunião para também dar seus dois votos contra, de resto deixo a decisão andar normalmente.
Breve voltei as minhas preocupações principais, sair para minha alimentação ou me alimentar de comida armazenada...

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