Fernando Firpo
Cheguei ao país durante a noite. Eu já havia saído num horário conveniente de Paris para chegar na escuridão na grande cidade de São Paulo, no Brasil.
Eu já havia estado numa visita rápida à cidade no ano anterior e conheço o Príncipe de antigas e conturbadas caçadas. Uma cidade complexa e interessante é como definem São Paulo. Um local cercado de inimigos, mantido sempre um equilíbrio entre a paz e a guerra.
Alguns antigos já estão na cidade a mais de duzentos anos, época de uma maior vinda de colonizadores ao país, mas a força jovem também é bastante presente.
Meu jato pousou em São Paulo no início da noite. Já haviam sido feito preparativos para me receber. Um apartamento foi alugado e mobiliado para minha pessoa já havia dois meses. Nos últimos meses eu havia estudado muito o idioma português, meu domínio do espanhol me ajudou bastante, e já me comunicava razoavelmente, embora tivesse um sotaque forte.
O aeroporto era bastante organizado e com as placas também em idioma inglês. Muitas pessoas trafegavam pelos corredores, algumas apressadas, outras andando calmamente. Apesar de ser noite o calor era grande.
Um homem chegou com minha bagagem, retirada do meu transporte. Muitas pessoas transitavam a minha volta, a maioria conversava no idioma português e tratei de ir acostumando meus ouvidos à pronúncia.
Após pegar minha mala tratei de procurar meu contato. Ele estaria com uma placa escrita William ou Bill Thorn.
Passei o olho por muitas pessoas, entre homens, mulheres e até crianças. Aquele povo parecia ter uma alegria interior como nenhum local do mundo. Já haviam comentado isso comigo algumas vezes.
Não tive problemas em passar na alfândega, mas eu também nada carregava de anormal. Mesmo financeiramente eu não estava entrando no país com mais que o permitido. Não é prudente arrumar problemas logo na chegada de uma nova e desconhecida cidade.
Ainda procurando meu contato enxerguei a placa com meu nome, sendo carregada por uma garota loira aparentando ter uns vinte anos de idade. Atrás dela havia dois homens fortes, parecendo grandes armários, possivelmente para garantir a segurança. A mulher era nitidamente uma vampira, os dois homens eu estava com dificuldade de perceber, talvez fossem mortais, mas não eram vampiros.
Aproximando-me disse em português:
--- Eu sou Bill Thorn. Você vive num belo país.
A garota rapidamente me examinou com olhar e depois disse:
--- Muito prazer Sr. Thorn, seja bem-vindo. Eu sou Márcia Rey, fui designada para recebê-lo.
--- Havia a necessidade de seguranças?
Ela pensou um pouco antes de responder.
--- Estamos no aeroporto, passam muitas pessoas por aqui e nem todas podem ser exatamente amigáveis. Esse é um território quase neutro, bastante fora de controle, preferimos evitar algum transtorno.
Eu sabia exatamente onde estava penetrando. A competição na América do Sul entre as duas principais sociedades de vampiros sempre foi disputada cidade a cidade. Outros hostis também são um risco sempre presente. O Brasil com suas grandes cidades sempre foi um território disputado e São Paulo, uma das maiores cidades do mundo sempre foi motivo de atenção.
--- Por favor, nos acompanhe Sr. Thorn. Sua moradia está pronta para recebê-lo. Também há um carro a sua disposição. O príncipe irá recebê-lo depois que o senhor se estabelecer.
Seguimos pelo aeroporto e logo estávamos no estacionamento.
Transitamos num carro comum, pelo menos deveria ser comum no Brasil. Os dois seguranças foram nos bancos da frente e Márcia e eu no banco de trás.
Após algum tempo numa estrada entramos na cidade. Eu já havia estado rapidamente na cidade e visto diversas fotos e até filmes sobre o Brasil e sobre a cidade de São Paulo, mesmo assim me surpreendi com a quantidade de edifícios e com as muitas pessoas e carros nas ruas, mesmo àquela hora da noite.
No caminho nós pouco conversamos. Eu estava interessado em ver a cidade e Márcia não parecia querer estabelecer grandes conversas.
Chegamos ao prédio onde ficava meu apartamento. Um prédio simples, um pequeno jardim, uma guarita, possivelmente mais de dez andares.
O carro entrou na garagem subterrânea e Márcia disse:
--- Essa é sua casa. É um prédio comum de classe média, conforme sua requisição.
Os dois seguranças permaneceram no carro e Márcia subiu comigo num elevador. O apartamento ficava no sétimo andar e o edifício tinha catorze andares.
Márcia abriu o apartamento e me entregou as chaves.
O apartamento não tinha grandes sofisticações. Possivelmente fora decorado para parecer normal diante de outras pessoas. Havia outros prédios ao lado e moradores desses prédios enxergavam partes do interior do apartamento.
Nos sentamos no sofá e Márcia começou a falar:
--- Espero que goste da decoração. Foi feita de modo a parecer comum para um cidadão de classe média aqui na cidade. Evite conversar demais com os vizinhos, eles podem estranhar um pouco só vê-lo à noite, mas a maioria não deve nem reparar, são pessoas ocupadas. Cuidado com seus gastos, não chame a atenção.
--- Eu já vivi em muitos locais como pobre. Não é a primeira vez que chego a um novo local.
Tentando estabelecer uma conversa mais duradoura perguntei:
--- Já viveu em outras cidades?
--- Não, nasci e sempre morei aqui em São Paulo.
--- Você é uma Toreadora, não é?
--- Sim.
--- Acho que vou gostar daqui. Como é a sociedade vampírica por aqui?
Ela demorou um pouco. Refletiu com calma naquilo que falaria. Depois disse:
--- Nosso clã, juntamente com os Ventrue, temos um poder considerável. No geral não existem grandes brigas ou disputas. Mas somos cercados por cidades hostis a nossa sociedade, então nunca podemos descuidar com a segurança. O histórico de São Paulo está marcado por conquistas e derrotas para a sociedade. Me disseram que você é muito rico e influente?
--- Bem, eu tive boas oportunidades. Talvez eu abra algum negócio aqui em São Paulo, mas inicialmente tenho muito a aprender. Você parece ser nova?
--- Sim, tenho apenas dez anos de existência vampírica.
A campainha tocou. Na hora me assustei e minhas defesas ficaram em alerta. Mas prontamente Márcia me tranqüilizou dizendo:
--- É minha amiga Paula. Ela ficou de me pegar aqui. Amanhã passarei aqui e o levarei a presença do Príncipe para formalizar sua chegada e apresentá-lo aos principais membros de São Paulo.
Com palavras um pouco receosas ela completou:
--- Evite sair antes disso, não queremos acidentes desagradáveis.
Ela abriu a porta. Do outro lado estava uma garota muito bonita, bastante sexy, cabelos negros longos e pele pálida, trajando jaqueta e calça de couro pretas e uma bota longa.
A garota não deveria ser uma Toreadora. Ela não parecia ser a mestra de Márcia, ambas aparentemente eram diferentes demais. Márcia educadamente a apresentou:
--- Essa é Paula, do clã Brujah. Esse é o Sr. Bill Thorn, eu comentei sobre ele com você, acaba de chegar de Paris.
Desinteressadamente a garota apertou minha mão e disse:
--- Seja bem-vindo a São Paulo. Espero que goste da cidade.
Paula também se despediu e ambas foram embora de mãos dadas, trocando algumas palavras enquanto entravam no elevador e eu fechava minha porta.
Peguei o telefone e liguei para Paris e depois para Londres. Eu podia estar do outro lado do mundo, mas os negócios e a sociedade não tem fronteiras.
Sozinho pude com calma pensar. Eu estava acrescentado mais uma nova vida, mais um personagem ao conjunto de vidas que formava o vampiro Bill Thorn...
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