quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Vida de Márcia

Fernando Firpo
Minha Antiga Vida

Meu nome é Márcia Rey. Nasci na grande cidade de São Paulo em Fevereiro de 1938.
Venho de família humilde, meu pai, Jorge Rey, era padeiro, casou-se com a minha mãe em 1937, ela era garçonete.
Desde muito nova participei de concursos de beleza, bastante incentivada pela minha mãe. Meu pai morreu em combate na segunda guerra mundial nos meus primeiros anos de vida.
Os anos se passaram, e apesar de uma vida sempre difícil financeiramente, minha mãe nunca deixou faltar o necessário para a nossa sobrevivência.
Com dezoito anos posei nua pela primeira vez para uma revista masculina. Talvez isso tenha selado o meu destino, talvez o que ocorreu já estivesse escrito em alguma profecia, eu nunca soube.
Era primavera, uma sessão de fotos estava começando a avançar a noite, um horário muito além do previsto. O pagamento pelo serviço era uma necessidade e eu não poderia dar-me o luxo de uma reclamação.
Já era quase meia noite quando a sessão foi encerrada. Meu trabalho e dedicação foi muito elogiado, o que serviria para me abrir muitas portas.
Entregaram-me um cheque com o valor integral do serviço. O fotógrafo tirou algumas notas do bolso e falou para que eu tomasse um táxi.
A região central da cidade encontrava-se deserta naquele horário. Andei por dois quarteirões e comecei a ficar preocupada.
Minha esperança apareceu quando enxerguei um homem muito bem vestido num termo impecável.
Naquele momento eu não soube explicar, mas senti de imediato uma simpatia muito grande por aquele homem. Ele era muito bonito e charmoso.
O estranho percebeu a minha presença e dirigiu-se em minha direção, com movimentos leves e calmos.
Nem pensei em afastar-me ou fugir. Isso não parecia fazer o menor sentido ou existir algum motivo para tal ato.
Quando estava a um passo de mim o homem disse:
--- É perigoso uma senhorita tão formosa andando sozinha a essa hora da noite. Gostaria que me acompanhasse.
A minha confiança e simpatia por aquele estranho apenas aumentaram. Sua voz calma, mas firme transmitiu um grande conforto. Ele me protegeria de qualquer perigo da noite escura.
Andamos juntos alguns passos e perguntei:
--- Qual é o seu nome senhor?
--- San Perteson.
O nobre senhor abriu a porta de um belo carro esportivo, indicando que eu deveria entrar, o que fiz imediatamente.
O carro era bastante luxuoso, decorado com bancos de couro. Um perfume que eu não conseguia identificar estava no ambiente.
San entrou no carro. Olhando-me fixamente nos olhos disse:
--- Seja bem vinda a eternidade.

Minha Nova Vida

Acordei sozinha. Senti frio. Não há luz, a escuridão é total.
Sinto-me fraca e com sede, a garganta seca machuca-me.
Tateio a volta, procurando algo que eu não sabia o que.
Eu estava numa cama macia. Um lençol cobria-me.
Sento-me com alguma dificuldade. Meus braços nada encontram que não seja a cama. Tento lembrar-me de como teria vindo para aquele lugar. Lembro de sangue, lembro de frio, lembro de medo.
Aquele homem de olhar tão sedutor. Eu estava com ele em um carro. Eu fiquei desacordada. Impossível saber por quanto tempo.
Meu corpo está estranho. Não estou ferida, mas sinto-me diferente. Sinto muita fome e sede. Devo ter ficado inconsciente por muito tempo.
Deixar aquela cama é uma obrigação. Junto as minhas forças e consigo levantar vagarosamente. A tontura tenta derrubar-me, mas eu tenho que ser forte.
Andando alguns passos toco a parede daquele recinto. Sinto o gelado daquela parede sem vida. Sinto frio.
Alguns passos tateando e seguindo a linha da parede. Nada de diferente, nenhuma saliência, nenhuma saída, nada.
Chego a uma porta. Madeira talvez. Uma maçaneta metálica. Giro-a usando das forças que ainda me restam.
Está trancada. Simplesmente não abriu. Devo retornar a cama. Não tenho forças para outra decisão. Não há tempo...

...

Luz. Meus olhos ardem. Estou na cama novamente. Posso me mover. Lembro-me da porta e da escuridão, mas não lembro de ter retornado a cama.
Abro os olhos com cuidado, procurando ver a minha volta. Ele está lá, mas nada fala. O estranho que me levou aquele lugar apenas olha. Está sentado sobre algo que não posso enxergar.
O quarto é simples. Uma parede branca, nenhuma janela, uma porta bege. Nenhum armário, quadro ou qualquer outro objeto.
Minha fome e sede são ainda maiores. Uma dor profunda incomoda meu estômago. Sinto um pouco de medo.
Encaro com curiosidade o estranho. Esse fala pela primeira vez naquele quarto:
--- Que bom que está consciente Márcia.
Ele sabia o meu nome. De alguma forma me conhecia. Mas talvez tivesse apenas pegado meus dados em meus documentos. Ele continuou:
--- Eu já estava ficando impaciente. Sou um homem ocupado. Tenho pouco tempo disponível e serei direto. Está me compreendendo?
Tentei falar e a garganta doeu um pouco produzindo um murmúrio baixo. Uma nova tentativa deu resultado numa voz débil e fraca:
--- Sim.
O homem continuou falando:
--- Isso é bom. Você é muito bonita, uma jóia rara ainda sendo lapidada. Ficará bela e formosa por uma eternidade. Eu a escolhi pela sua beleza. Admiro muito o belo. Eu sou um vampiro, você sabe o que é um vampiro?
Aquelas palavras cada vez faziam menos sentido. Talvez aquele estranho fosse um louco, mas de qualquer maneira ele tinha-me em seu poder. Eu sabia o que era um vampiro, conhecia um pouco da lenda, quem não conheceria. Pronunciei da melhor forma possível:
--- Sim, eu sei.
--- Bom, muito bom. Você é uma vampira agora. Está em segurança no meu refúgio, por enquanto não poderá sair.
Ele uma pausa por um momento apenas. Acho que quis certificar-se que eu estava entendendo suas palavras. Depois continuou:
--- Eu sou San Perteson, agora você é uma cria minha. Deve-me obediência total. Ensinarei-lhe o que precisa saber de agora em diante. Você viverá aqui por enquanto, eu lhe provirei de alimentação e conforto. Faça qualquer bobagem e eu mesmo a mato, você me entendeu?
--- Sim.
--- Que bom! Estamos conversados então.
Ele estava sentando sobre uma poltrona simples. Ao lado da cama havia um pequeno criado mudo. Sobre o mesmo um grande copo com um líquido vermelho.
Aquele homem levantou-se e apontando para o criado mudo disse:
--- Essa é a sua alimentação, beba se quiser, é sangue humano puro, saiba que cedo ou tarde tomará desse líquido e irá gostar muito.
Sem mais palavras e sem demonstrar qualquer outra emoção San foi embora. Em alguns passos abriu a porta e logo a fechou. Fora do quarto a escuridão era total e nada pude ver.
Olhei com curiosidade o copo e senti náuseas. Aquilo não poderia ser sangue. Parecia suco de tomate ou algum outro líquido vermelho.
Minha sede era muita, resolvi experimentar por mim mesma o sabor daquele líquido. Eu já havia tomado suco de tomate uma vez.
Assim que meus lábios tocaram aquele líquido eu sabia que aquilo era realmente sangue. Mas minha náusea desapareceu imediatamente. Um prazer indescritível tomou conta do meu ser.
Tomei todo o sangue. Senti-me diferente. Eu sei que estou diferente. Alguma coisa morreu em mim. Uma parte minha está morta, eu sei. Nesse momento eu soube. Eu sou um vampiro.

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