domingo, 17 de outubro de 2010

Missão Interior

Fernando Firpo


Eu já havia lido na Internet e no jornal algumas notícias bastante estranhas, e possivelmente perigosas. Desconfiava que era uma questão de tempo, pouco tempo, para que representantes de São Paulo fossem acionados.
São Carlos é uma cidade no interior de São Paulo, distante cerca de duas horas e meia da capital, com uma população de cerca de cem mil habitantes. Eu não conhecia a cidade, mas a sociedade vampírica de algumas cidades e comunidades do interior do estado respondem a poderes locais que respondem a Mr. David Sherman, príncipe da cidade de São Paulo.
Nessa pacata cidade, com baixa criminalidade, haviam ocorrido cinco assassinatos na última semana, todas as vítimas adolescentes do sexo feminino. Os assassinatos ocorreram em dois dias diferentes, no primeiro atentado morreram duas garotas e no segundo, dois dias depois, ocorreram mais três mortes. Todas as vítimas foram encontradas praticamente sem sangue, com pescoços e pulsos dilacerados e roupas rasgadas. O pouco sangue encontrado espalhado no local e nas vítimas é insuficiente e nenhum outro sangue foi encontrado. Veículos de notícias traziam manchetes satíricas falando de um vampiro solto no interior de São Paulo. O caso poderia se tornar perigoso.
O telefone tocou, Numa atitude rara, eu mesmo atendi.
Algo como uma intuição dizia que aquela ligação traria problemas. Ainda não sabia que era algo ligado aos crimes do interior, mas breve viria a descobrir.
Não reconheci a voz do outro lado. A pessoa se identificou como assessora de Leann Cornwall, uma vampira poderosa e muito perigosa. Como eu, ela fazia parte da primigênie que respondia ao príncipe da cidade.
Logo a ligação foi passada para Leann. Sua voz doce e afiada era bem conhecida minha, bem como sua influência na sociedade e junto ao príncipe.
--- Em que posso ajudá-la Sra. Leann?
Sua voz era calma e confiante. Eu não podia perceber nenhum sinal de traição ou qualquer nervosismo, mas essa frieza era algo comum naquela mulher.
--- Você já deve ter sabido sobre os crimes envolvendo garotas que ocorreram no interior, estou correta?
--- Sim, li a respeito.
--- Como você já deve esperar, o caso necessita de interferência urgente nossa. Ele pode ter grande repercussão negativa para nós. O Príncipe quer membros importantes da cidade na solução do caso e me incumbiu de escolher alguém para me acompanhar.
Pensando rápido falei:
--- Conversou com Kimberly Summers, ela adoraria uma missão dessas.
Com uma rapidez de uma resposta pronta e planejada ela disse:
--- Ela não tem o perfil que eu quero nessa missão. Agora são nove horas, a meia-noite deixaremos São Paulo num pequeno avião para São Carlos. Partiremos do Campo de Marte, Zona Norte, hangar 3, você já deve conhecê-lo. A viagem será curta, desceremos num pequeno aeroclube onde seremos recebidos por um grupo de vampiros local. Você tem três horas, alguma dúvida?
Eu não tinha dúvidas, mas tinha muitas reclamações. Ela sabia que eu poderia negar a missão, mas isso me traria complicações indesejadas para com o príncipe.
Procurei lembrar se existia algum motivo para uma traição, mas não encontrei resposta. Aquela vampira me mataria sem hesitar se isso lhe trouxesse vantagens. O meu assassinato seria arriscado e poderia desequilibrar a cidade, mas minha morte numa missão traria problemas menores. Uma guerra dentro da cidade era de interesse de muito poucos.
--- Estarei lá. Tenho algumas ligações para fazer. Iremos apenas nós?
--- Sim. O piloto e o co piloto são humanos que trabalham para nós, não participarão da missão e retornarão para São Paulo. Não é necessário levar nenhuma arma ou outro equipamento especial ao aeroporto, tudo que precisaremos estará no avião ou no destino. Até daqui a pouco.
Pensei em ligar para Cathrin, a responsável a frente dos meus negócios, mas desisti da idéia. Ela sabia o que fazer caso eu desaparecesse, todas as contingências estão plenamente planejadas, os negócios ficariam em excelente comando.
Pedi a um empregado para montar uma breve mochila com algumas peças de roupas. Eu deixaria para trás meu traje social típico, para vestir trajes esportivos e que chamariam menos a atenção.
Aproveitei o tempo ocioso para buscar mais informações na Internet, mas nada descobri de novidade. A polícia ainda estava à procura de um possível psicopata.
Fui de táxi até o aeroporto. No caminho aproveitei para responder alguns e-mails pendentes e quase não percebi o trajeto. Cheguei ao aeroporto e facilmente encontrei o hangar três. Era um ponto de saída comum para algumas viagens curtas específicas.
Leann já estava lá. Vestia um traje de couro negro bastante sexy. Desligou seu celular no momento que cheguei e fazendo um gesto para o piloto que estava próximo disse:
--- Está dez minutos adiantado. Sairemos já. Mr. Sherman quer um serviço rápido e preciso. Os locais já identificaram que existem vampiros, talvez mais de um, envolvidos no caso. Não sabemos quem são ou de onde vieram, nossa missão primária é a eliminação desses vampiros, se possível, a missão secundária é descobrir quem são eles.
O Príncipe David Sherman era um vampiro novo e estava há pouco tempo no poder, assumiu seu posto em substituição ao antigo príncipe que desapareceu. Sua liderança não é bem aceita por muitos, o que mantém a cidade em um equilíbrio delicado. O apoio ao príncipe de outros vampiros poderosos é vital para a estabilidade. Inimigos estão aguardando uma chance para o caos.
Leann entrou na aeronave e eu rapidamente entrei atrás. Um tripulante fechou a porta e indicou o caminho de onde deveria me sentar.
O avião era pequeno, tinha lugar para apenas seis passageiros e não era dos mais modernos. Leann se sentou de um lado da aeronave e eu sentei-me do outro. O tripulante desapareceu por uma porta que depois ficou fechada. Em poucos minutos a aeronave estava em movimento e logo decolou.
Leann permaneceu calada. Seus pensamentos pareciam distantes.
Minhas capacidades como vampiro podiam perceber emoções, sentimentos, intenções, entre outras coisas. Nos mortais a percepção é mais nítida, nos vampiros é mais turva. Até onde eu podia detectar a vampira não tinha intenções traiçoeiras para comigo, na verdade seus sentimentos eram de raiva por estar naquela missão. Resolvi falar algo:
--- Porque me colocou nessa missão e não alguém da sua família?
Ela pareceu se surpreender com a pergunta. Pensou um pouco para responder. Estava absorvida em pensamentos distantes. Falou com relutância:
--- Mr. Sherman queria outro membro da primigênie na missão, isso dará mais status a solução do caso. Kimberly adoraria essa missão, mas é explosiva e inconstante, não é a mais indicada para essa missão, também está envolvida em outros projetos. Você é um risco menor que alguns outros.
A preocupação dela era um bom sinal. Na verdade ela não queria estar naquela missão.
A viagem foi rápida. Trocamos poucas palavras e logo o pequeno avião já estava em solo.
O pequeno aeroporto era bastante simples comparado ao que levantamos vôo. Havia apenas uma pista e um pequeno prédio. Deveríamos estar na periferia da cidade, pois havia poucas casas próximas e uma área verde bastante abundante.
Dois carros estavam estacionados e aparentemente a nossa espera. Não pude contar o número de mortais e ou vampiros que estavam a nossa espera.
Quando um dos tripulantes abriu a porta três pessoas já estavam a nossa espera. Pude ver suas áureas e sabia que se tratavam de vampiros. Seus trajes eram informais e eu nunca havia visto nenhum deles.
Um dos vampiros tomou a frente. Era possivelmente o líder. Era um homem que aparentava uns trinta anos, cabelos castanho escuros e curtos, uma vestimenta simples que aparentava total desprendimento com qualquer moda que existisse. Estava acompanhada de uma garota que aparentava vinte anos, cabelos negros lisos e compridos, uma roupa masculinizada formada de calça a camiseta. O outro homem era mais velho em aparência, talvez uns quarenta anos, cabelos ralos, um traje mais formal. O líder interrompeu meus pensamentos e minha análise falando:
--- Sejam bem-vindos a São Carlos. Sou Tomas Jean, Coordenador Local. Esses são Ana Trian e Augusto Jorge Bastos, são meus assessores de confiança.
Leann tomou a frente:
--- Eu sou Lean Cornwall e esse é Bill Thorn. Somos da primigênie do Príncipe Sherman. Eu estou no comando dessa operação. Alguma novidade sobre o caso?
O líder apontou para a garota que tomou a palavra dizendo:
--- Estou pessoalmente encarregada da investigação. Nós somos em poucos vampiros na região e nenhuma pista aponta para qualquer conhecido.
Um pouco arrogante Leann disse:
--- Posteriormente analisaremos tudo sobre o caso. Quero que seja interrompida e seus resultados relatados de qualquer ação que esteja em andamento. Caso alguma não possa ser interrompida por alguma razão, quero ser informada. Não quero que nosso trabalho sofra alguma perturbação de qualquer espécie por outros agentes. Você é nosso contato aqui Ana, não são necessários no momento outros vampiros ou mortais, pedirei caso exista necessidade de alguém mais.
O líder consentiu com um ligeiro movimento da cabeça.
Tomas Jean deveria estar numa posição delicada no comando da cidade. Não havia solucionado um problema local relativo a vampiros e estava necessitando de ajuda externa. Sempre existiria a possibilidade de David Sherman considerar ele incapaz para o cargo que ocupava na cidade, mas eu acreditava que isso seria improvável, ele não estava num momento ideal para alterar uma estrutura de poder que já estava com diversos pontos delicados.
Fomos encaminhados para um dos carros. Nele já existia um motorista que na mesma hora percebi se tratar de um mortal. Tomas sentou no banco da frente e Ana Trian sentou-se conosco no banco de trás do veículo.
Já fazia algum tempo que Ana falava ao celular. Observei que ela conversava com diferentes grupos e ordenava interrupções em operações em andamento.
Sob um ponto de vista mais político Leann estava correta em ordenar a interrupção das operações em andamento, era interessante delinear com precisão quem estava no controle do caso e ao mesmo tempo trazer para nós a solução do mistério, mas sempre existe a possibilidade de estar adiando ou perdendo a solução do caso devido a detalhes perdidos ou em alguns casos sabotados.
O carro prosseguia por uma pequena estrada. Tomas interrompeu o silêncio dizendo:
--- Estamos próximos da cidade, mas em área de risco, por isso viemos em vários vampiros. Nunca se sabe quando podemos ter problemas nessas matas, a cidade é território mais seguro.
Eu não sabia quantos vampiros existiam oficialmente em São Carlos, mas tinham cinco vampiros no outro carro e sem contar Lean e eu, mais dois vampiros no nosso carro, totalizando sete vampiros. Apenas nosso motorista era mortal.
Na cidade havia poucos prédios e uma predominância maior de casas. Eram poucos os lugares abertos àquela hora da noite e logo chegamos a uma pequena casa com um carro na garagem.
A casa externamente era simples. Um portão já antigo era a única proteção entre a garagem com um carro e a rua. No pequeno quintal alguns materiais de construção e outras peças espalhadas tornavam o local peculiar. Tomas disse:
--- Dentro da casa vocês encontrarão armas e outros equipamentos que podem vir a precisar. Ana sabe onde nos localizar caso necessite de algo. O carro na garagem está à disposição de vocês e a casa tem uma linha telefônica fixa, caso precisem. Sucesso na missão.
Deixamos o carro e logo Ana estava tirando um rudimentar cadeado do portão. Não falou nada até estarmos num primeiro cômodo dentro da casa. Após fechar a porta ela disse:
--- Aos olhos dos vizinhos essa é uma casa de temporada. Esporadicamente é ocupada. Nós a usamos para hospedagem de visitantes ou quando existe necessidade. Sejam cautelosos, as pessoas por aqui são curiosas e muitas vezes falam sobre a vida na vizinhança.
Apontando para o corredor que penetrava na residência Ana disse:
--- A casa é pequena, mas seu fundo é bem reservado. Estamos na sala, aqui não existe proteção de dia. No corredor existe uma cozinha com geladeira, um banheiro simples e um quarto. O quarto é totalmente fechado, não existe janela e não tem a menor entrada de luz solar. Vocês repararão que o quarto tem uma porta pesada metálica. O quarto é construído em torno de um cofre de aço, mesmo que a casa inteira seja demolida, o quarto resistirá. Fechada a porta, é bastante trabalhoso e demorado penetrar no quarto, isso nos garante certa segurança.
A sala era rudimentar e simples. Algumas caixas deixavam armas à vista. Um sofá de dois lugares e pano bastante sujo era um dos poucos móveis da sala, que contava com uma televisão antiga sobre um banco de madeira e um telefone sobre outro banco de madeira.
Leann dirigiu-se em direção ao quarto, seguida pela Ana.
Sentei-me no sofá. O local não era dos mais agradáveis, mas atenderia aos propósitos da situação.
Reparei em uma pequena prateleira com alguns livros sujos. Poderia ser um passatempo se a televisão não funcionasse, mas Ana resolveu a questão, ao voltar do quarto e dizer:
--- A televisão funciona, tem uma antena ruim, a imagem é apenas razoável.
Leann voltou do quarto e imediatamente disse:
--- As férias terminaram. Ana, suponho que você já cancelou as operações em andamento, estou correta?
--- Sim. Eu tinha três vampiros em campo que no momento já se encontram fora do caso. Um deles tem acesso à polícia local e continuará apenas nos informando sobre novidades.
Sentando-se no banquinho do telefone Ana continuou:
--- Praticamente é certa a participação de vampiros nos assassinatos. As vítimas tiveram quase a totalidade de seu sangue desaparecida. Tivemos acesso a fotos dos ferimentos, foram feitos por dentes ou garras afiadas, está descartada a perfuração por uma faca ou similar. Mas esses assassinatos são só a ponta de algo mais estranho. Foi muito pouco divulgado, mas suspeitamos que nos últimos dois anos estão desaparecidas em torno de setenta garotas jovens e adolescentes, na faixa entre 16 e 25 anos.
Leann comentou, também sentando no sofá:
--- É um número considerável que chamaria a atenção de órgãos competentes e da mídia.
Ana já estava com a resposta pronta:
--- Temos duas grandes universidades aqui na cidade. São milhares de estudantes que vem e vão da cidade todos os anos. Todas as garotas desaparecidas e as assassinadas não são daqui, são estudantes de outros locais que vieram freqüentar cursos de graduação, pós-graduação e cursos livres diversos. Alguns casos até chegaram a serem divulgados, mas foram arquivados sem conclusão alguma. Já tiveram casos solucionados do jovem que retorna alguns dias depois de alguma farra em cidades vizinhas, simplesmente foi embora da cidade, aparece morto nas estradas e a solução atribuída a um assalto, e casos assim. Não existe interesse da cidade ou das universidades em divulgar isso, seria prejuízo certo.
O caso fazia pouco sentido. Um vampiro experiente jamais deixaria uns rastros tão nítidos, que com certeza levaria a sua perseguição e morte final. Com os desaparecimentos acumulando dois anos, talvez a morte das garotas tenha sido um acidente, pois os desaparecimentos ainda poderiam permanecer anos no esquecimento ou nunca serem devidamente apurados. Ainda existia a possibilidade de vampiros inimigos estarem envolvidos, forças ocultas e inimigas poderiam estar preparando um estabelecimento na região, o que poderia iniciar uma guerra.
Leann também estava absorvida em pensamentos. Ana permaneceu em silêncio algum tempo, parecia estar percebendo que ambos estávamos concentrados.
Pouco depois Leann interrompeu a concentração falando:
--- Algum padrão nos desaparecimentos: datas, intervalo de tempo, locais?
--- Não. Na maior parte das vezes foram desaparecimentos individuais ocorridos com uma ou duas semanas de intervalo. Existiram alguns de duplas e ocorreram mais de um individual no mesmo dia, mas foram menos comuns. Tirando os corpos encontrados recentemente sem sangue, nenhum outro corpo semelhante apareceu. Todas eram garotas jovens estudantes, mais nada apurado.
As possibilidades estavam germinando, mas nenhuma levava a uma conclusão precisa, tirando o fato que um ou mais vampiros estavam envolvidos.
Eu perguntei:
--- Locais dos desaparecimentos ou da localização dos corpos?
--- É difícil precisar o local do desaparecimento, mas não existe um último local comum que tenham sido vistas. Moravam em locais diferentes na cidade, embora a maioria residisse próxima das universidades. Os corpos foram encontrados dois juntos no mesmo local e depois os outros três corpos num outro local, esses locais são matas fora da cidade e são distantes um do outro, ficam em estradas diferentes.
Lean tirou suas primeiras conclusões:
--- Talvez estejamos atrás de alguém pouco experiente no mundo vampírico. Um vampiro de aproximadamente dois anos, não autorizado e que desconhece a sociedade. Uma criança inexperiente: caça, se alimenta e mata jovens do sexo feminino. Alguém da região, que não veio e não gosta de cidades grandes. Um vampiro criado aqui por alguém daqui ou de passagem. O que acha Bill?
--- É uma possibilidade, talvez a mais forte possibilidade. É mais seguro e benéfico que encontrar uma célula de nossos inimigos operando na região.
--- E testemunhas? – perguntou Leann.
--- Oficialmente nenhuma. Foi precisado que todas as mortes ocorreram no período noturno.
Eu perguntei:
--- E as operações que estavam em andamento?
--- Eu tinha três agentes em campo, mas um deles estava agindo apenas na coleta das informações junto a policia. Foram seguidas algumas pistas, mas nada foi conseguido. Seguimos algumas dicas dadas por conhecidos e amigos das vítimas dos assassinatos, mas nada de útil. Um dos agentes seguia uma pista na zona industrial, a defesa sanitária lacrou um galpão. Ele estava fechado e faziam anos não era oficialmente usado. Vizinhos fizeram uma denúncia que mau cheiro. Localizaram algumas carcaças de bois com partes dilaceradas. Não chegaram a serem feitas análises nos animais, mas suspeitamos que eles estavam sem sangue, devido à quase inexistência de sangue no local. O outro agente está investigando e vigiando as universidades, já que o vampiro ou os vampiros envolvidos tem fixação por jovens garotas universitárias.
O caso mostrava suas complicações. Na prática não existiam pistas ou testemunhas. Poderíamos passar meses sem descobrirmos nada, mas tínhamos poucos dias antes de uma impaciência do príncipe. Leann sabia disso e eu podia sentir sua preocupação. Seria uma grande desvantagem se necessitássemos de auxilio para solucionar o caso.
Leann disse de modo decidido:
--- Temos cerca de três horas até o Sol nascer. É um período arriscado para alguma incursão externa, mas por outro lado não temos tempo disponível para descansos.
A madrugada terminou com hipóteses e idéias sendo levantadas, mas sem novas atividades práticas.
O dia transcorreu sem nenhum problema. O sono renovador foi tranqüilo. Logo que o Sol se escondeu estávamos prontos para efetivo inicio de investigações.
O local inicial de nossas investigações eram as universidades. O elo maior de ligação entre os crimes eram os centros acadêmicos. Um professor que lecionava em ambas as universidades no período noturno era um vampiro.
Visitamos uma das universidades. Um local amplo, formado por vários prédios pequenos, grandes áreas de vegetação e um razoável complexo esportivo. A área ocupada era enorme.
Procurei sentir bastante a emoção dos mortais com os quais mantínhamos proximidade. Havia muitos alunos em todos os locais, passávamos normalmente como estudantes, ninguém estranhava nossa presença.
Leann também estava concentrada. Buscava nas pessoas algo estranho, diferente ou uma pista qualquer.
Eu desconhecia a extensão dos poderes vampíricos de Leann. Ela era uma vampira poderosa, tinha um lugar de destaque em São Paulo e exercia bastante influência sobre o Príncipe, mas poucas vezes tive oportunidade de vê-la em ação. Algumas histórias relatadas eram incríveis. Anos antes ela foi uma das responsáveis pela colocação do Príncipe Trey no poder, foi igualmente responsável por Sherman estar como príncipe, nunca pude descobrir até onde ela foi responsável pela queda do Príncipe Mark, mas com certeza esteve envolvida nesse fato.
--- Leann, infelizmente estamos no escuro. Podemos andar por meses pelas universidades sem descobrir nada.
--- Tem alguma sugestão... ?
--- Alimentação! Pelas garotas encontradas podemos supor que foi um acidente ou um erro grave. Temos muitas outras garotas desaparecidas, onde elas estão? Pense um vampiro independente talvez matando todas suas vítimas para alimentação numa cidade pequena. Quantas vítimas seriam necessárias, digamos uma pessoa a cada três ou quatro dias, talvez uma por semana. Temos dois anos desde os primeiros desaparecimentos de garotas, um pouco mais de setecentos e vinte dias, considerando uma vítima a cada quatro dias, teríamos cento e oitenta pessoas, mas se formos colocar outros fatores, esse número passaria fácil de duzentas pessoas.
Ana disse:
--- O suposto vampiro poderia estar se alimentando de outras pessoas que não apenas garotas universitárias, também não sabemos se mata todas suas vítimas, pode ainda estar se alimentando de animais com mais regularidade do que de humanos, tem muitas fazendas aqui na região e muitos animais nas matas.
Uma intuição dizia que as hipóteses levantadas por Ana estavam erradas. Faltava uma peça decisiva para a montagem completa do jogo.
Leann deduziu:
--- Esse vampiro não sobreviveria 2 anos andando pelas matas. Talvez nem 1 dia se não tivesse sorte. Ele poderia ter acesso a outras fontes, tipo bancos de sangue...
Rapidamente perguntei:
--- Quantos hospitais existem na cidade?
--- Grande apenas um. Existem outras clínicas menores, consultórios médicos, coisas assim.
Logo estávamos fora da universidade e se dirigindo para o Hospital Municipal de São Carlos.
O hospital era de um tamanho razoável, mas estava em deficiente estado de conservação. As poucas pessoas pelas quais passamos no estacionamento eram seres humanos comuns.
O carro ficou no estacionamento e entramos como visitantes comuns.
A recepção estava pobremente decorada. Muitas pessoas estavam sentadas aguardando atendimento. Sentada atrás de uma mesa, uma recepcionista que devia ter uns dezesseis anos tentava organizar pessoas descontentes e tirar dúvidas de muitos ao mesmo tempo. Leann disse:
--- Não será com a menina que vamos conseguir uma informação útil. Já esteve aqui Ana?
--- Uma ou duas vezes, faz muito tempo. Eu não saberia andar nesses corredores.
Uma médica passou a alguns metros de nós. Não pude vê-la direito num primeiro momento, mas isso era irrelevante. Ela seria útil.
A médica interrompeu sua passagem. Ficou parada por um instante, devia estar confusa. Ela estava experimentando uma sensação muito forte e completamente inesperada.
Pouco depois a médica olhou sua volta e logo seus olhos se cruzaram com os meus. Afastei-me um passo de Ana e Leann, que começavam a entender minha estratégia.
Com passos calmos, mas diretos, a médica se aproximou de mim e disse:
--- Você vai achar estranho, mas parece que te conheço a uma eternidade. Qual é o seu nome?
--- Fábio. --menti. E o seu?
Aumentei ainda mais a força da minha capacidade. Ela estava literalmente apaixonada pelo estranho que nunca havia visto. Era difícil determinar qual seria a predisposição da médica em nos auxiliar, isso varia muito de pessoa para pessoa, mas a possibilidade era bastante favorável.
--- Amanda. Eu me sinto tão estranha. Podemos ir para outro lugar, eu já estou de saída aqui do hospital. Você é um gato, sabia?
--- Na verdade eu precisava de um favor seu aqui, se você puder me ajudar?
--- Sim, certamente que posso. O que seria?
Pensando rápido falei:
--- Essas são minhas irmãs, Ana e Paula. Paula sofre de anemia grave, pode precisar brevemente de uma transfusão de sangue, queríamos conhecer a ala aqui do hospital que cuida disso.
A Dra. Amanda não hesitou nem um segundo e disse:
--- Claro meu amor, sigam-me.
Ela olhava-me e às vezes sorria e dava risadinhas a todo o momento. Parecia estar ficando embriagada e diminui um pouco da força da minha capacidade de presença. Ele não deveria chamar muita a atenção, ou poderia por nos colocar em risco.
Com delicadeza peguei a sua mão e passei a andar junto com a médica. Essa sorriu ainda mais e parecia transpirar felicidade.
Andamos por corredores. Alguns outros médicos e outras pessoas cumprimentavam a passagem da doutora, mas ninguém fez qualquer gesto que indicasse que poderia nos comprometer.
Em pouco tempo estávamos numa sala grande e escura. A médica acendeu as luzes e disse:
--- É o maior hemocentro da região. Tecnologia de ponta, você pode ficar tranqüila Paula, estará em boas mãos profissionais aqui. O responsável só estará aqui amanhã, querem que eu marque um horário?
--- Não, por enquanto não.
Liguei um terminal de computador. Olhando para Amanda e fazendo o melhor sorriso que pude falei:
--- Você tem acesso a dados sobre esse departamento nesse terminal?
--- Sim, acho que sim.
Leann perguntou?
--- Qual é a sua especialidade doutora?
A médica parecia até ter se esquecido da presença das duas mulheres, estava sorridente e numa tentativa de ficar mais sexy desprendeu os botões superiores de seu avental deixando um decote aparecer. A pergunta a devolveu um pouco a razão e ela disse:
--- Eu sou pediatra.
A atenciosa médica pediatra sento-se numa cadeira em frente ao terminal. Entrou em algumas telas que percebi serem entradas de sistema e validação de usuário e logo falou:
--- Fábio, queria sair logo daqui com você. Precisamos ver isso agora?
Tentando fingir uma calma e uma compreensão, além de carinho, eu falei:
--- Logo estaremos longe daqui Amanda, mas no momento preciso de algumas informações que encontraremos nesse computador. Preciso muito da sua ajuda, é muito importante para mim.
As palavras certas haviam sido escolhidas para induzir a profissional a encontrar as informações requeridas sem demora ou dúvidas. O vínculo criado entre Amanda e eu era forte, mas como qualquer amor verdadeiro, está sujeito a diversas variáveis.
Alguns médicos passaram conversando no corredor próximo. Leann tomou uma posição se preparando para o pior, mas logo os médicos já estavam longe e não tomaram nenhuma atitude que mostrasse que nossa presença havia sido alvo de atenção.
Dr. Amanda passou por mais algumas telas no terminal de computador e perguntou:
--- Qual informação será útil?
Eu respondi com palavras diretas:
--- Queremos saber sobre pacientes tratados aqui no hemocentro. Quais recebem constantemente transfusões de sangue, se apareceram nos últimos dois ou três anos alguma doença exótica ou estranha, qualquer outro fato registrado fora do comum.
A atenciosa moça digitou palavras, entrou em outras telas, estava realmente se dedicando a tarefa destinada.
O tempo passou. Reparei a entrada em algumas fichas, mas não fiz nenhuma pergunta que pudesse atrapalhar ou atrasar a busca. Leann e Ana andavam impacientes, mas silenciosas pela ampla sala.
Mais médicos passaram pelo corredor. Pude perceber que um deles estranhou as luzes da sala acesas, mas foi embora e aparentemente não se importou com o fato.
O silêncio, apenas partido pelo som da digitação, já estava se tornando irritante, quando a médica disse:
--- De dois anos para atualmente cresceu bastante o recebimento de sangue de São Paulo. Antes de dois anos atrás nós tínhamos um excedente de sangue que no geral era enviado para São Paulo e às vezes para outros hospitais na região, mas depois começou a existir falta de sangue e começamos a receber remessas semanais de São Paulo. A quantidade só cresceu.
Mudou de tela e de informações no computador e continuou falando:
--- Temos alguns “clientes” fixos. Nas suas fichas não existe um diagnóstico preciso, apenas hipóteses e suspeitas levantadas pelos médicos desse setor, mas alguns homens, aparentemente saudáveis, aparentemente numa boa situação econômica, sofrem constantemente de anemia e às vezes são obrigados a fazer transfusões de sangue, quando a anemia se torna grave. Devido a essa anemia grave já ocorreram mortes, foram quatro mortes nos últimos dois anos. Esses pacientes começaram a aparecer com regularidade de dois anos para cá. Alguns foram encaminhados para tratamento e exame mais completo na capital, mas nada foi descoberto de conclusivo.
Ela olhou para mim. O fato grave estava trazendo a doutora mais para a razão e afastando seu lado emocional. Aumentei a força da minha capacidade para equilibrar o fato, mas logo eu poderia chegar a um limite.
Amanda voltou-se novamente para a tela do computador e após mais algumas palavras digitadas disse:
--- Eu nunca fiquei sabendo nada desses fatos. Tem dois casos aqui onde pai e filho sofrem com o problema, isso pode ser contagioso.
Leann perguntou:
--- Alguma mulher nessa situação, ou apenas homens?
Ela respondeu prontamente:
--- Só homens. No geral estão na faixa entre trinta e cinqüenta anos, alguns são mais jovens e tem outros poucos com mais de cinqüenta. Um adolescente e nenhuma criança.
Ana disse com firmeza:
--- Quero uma listagem de todos os homens nessa situação. Nomes e endereços.
A médica mostrou sinais de dúvida se deveria obedecer àquela ordem. Seu lado racional a informava que aquele pedido era irregular e violava regras do hospital, mas seu afeto por mim a deixava em estado de confusão.
Eu sabia que poderia manter a situação sob controle, mas Leann perdeu a pouca paciência que lhe restava. Com rapidez e antes que eu pudesse discordar tirou de seu bolso a pequena arma e colocando na cabeça da atenciosa doutora disse:
--- A brincadeira chegou ao fim. Tire essa listagem, agora!
A doutora ficou confusa por um pequeno instante. Com a situação fora de controle eu deixei de exercer minha influência. Ela estava confusa como teria chegado a aquele ponto, como havia sentido algo tão estranho e súbito pela minha pessoa. Mas pouco tempo havia para respostas, Leann balançou a arma e trazendo Amanda para mais perto da realidade disse:
--- Agora!!!
Com alguns cliques e palavras digitadas o relatório começou a ser impresso. Ana lia atentamente os nomes relacionados, mas não fez comentários.
Eu temi que alguns daqueles homens poderiam ser vampiros. Se esse fosse o caso, Ana jamais deixaria Amanda ficar viva e seria com certeza apoiada por Leann.
Também temi que Ana estaria ocultando outros vampiros não autorizados na cidade. Se a situação fosse essa, poderiam não deixar Leann e eu sairmos da cidade inteiros, mas eu não sentia em Ana qualquer evidência de traição. Nosso desaparecimento atrairia mais vampiros a região e um ataque direto contra nós seria difícil de ser vencido.
Com o final do relatório, após alguns minutos, percebi a intenção de Leann de deixar a doutora morta naquela sala. Mas rapidamente trouxe-a a razão:
--- Leann, não podemos deixar pistas aqui. Eles rastrearão as informações obtidas nesse terminal, poderemos começar uma investigação maior com isso. E quantas câmeras devem ter registrado nossas imagens.
Foi nítida a mudança de idéia de Leann. Ela era bastante racional e lógica.
Com um forte golpe na cabeça fiz a doutora desmaiar. Essa na mesma hora caiu para o lado inerte. Expliquei rapidamente minha intenção:
--- Naqueles armários tem aventais e roupas brancas. Naquela parede uma cama de rodas. Vamos tirar a doutora daqui como se fosse uma paciente em transferência. Não posso carregar ela pelos corredores, mesmo invisível, eu seria visto em câmeras de vigilância.
Com sua frieza Leann disse:
--- Isso é perda de tempo. Eu sou a líder da missão. Vamos estourar esse lugar. Matar todos, destruir a sala de gravação das imagens e a sala dos servidores de computadores.
Não era do meu agrado assassinar inocentes sem uma forte razão. Ana foi que veio em auxilio da minha idéia quando disse:
--- Nenhum desses homens do relatório é um vampiro, pelo menos eu desconheço. Mas esse hemocentro já foi de muito auxilio a vampiros em caso de necessidade, vocês não podem destruir o hospital, não existe motivo para tal.
Leann parou por um momento. Ela não desejava colocar em risco a célula de vampiros da região, que é vital como linha de frente na defesa e nos interesses de São Paulo. Com calma Leann disse:
--- Não desejo colocar em risco sua comunidade Ana. Faremos do modo como Thorn sugeriu, pelo menos por enquanto.
Leann guardou sua arma e rapidamente já estava se preparando com os trajes brancos.
Também fiz o mesmo e logo estávamos todos parecidos com médicos. Amanda foi arrumada na maca de rodas, teve seu rosto parcialmente coberto para dificultar identificações. Nós colocamos máscaras de médicos e logo estávamos andando rapidamente pelos corredores.
Passamos por médicos e enfermeiros sonolentos ou com outras preocupações. Após algumas voltas encontramos uma garagem com duas ambulâncias. Antes que outras idéias aparecessem falei:
--- Eu vou pegar nosso carro e trago até aqui. Não quero que o roubo de uma ambulância
entre nas investigações.
A garagem estava interligada e próxima do estacionamento. Sem qualquer problema peguei o carro e em pouco tempo estava na entrada da garagem.
Colocamos em pouco tempo Amanda no porta malas do veículo e logo deixamos o estacionamento do hospital.
Eu podia perceber que Leann não tinha nenhuma intenção de manter a médica viva. Ana estava mais preocupada na investigação que poderia acontecer nos próximos dias, mas isso poderia ser ainda mais agravado se a médica estivesse viva e dando seu depoimento. Infelizmente a médica sabia demais sobre as irregularidades descobertas no hemocentro.
Leann usando sua liderança ordenou:
--- Dessa listagem, qual é o endereço do homem mais próximo de onde estamos?
Eu dirigia com calma e sem destino. Logo Ana veio com a resposta:
--- Tem um homem a uns cinco minutos daqui.
--- Vamos para lá. --- ordenou Leann.
--- Vire a direita na próxima Bill. --- disse Ana.
Andamos apenas três quarteirões quando Ana disse.
--- Estamos próximos, é por aqui.
Ela consultou a numeração do local e depois disse:
--- Ali. As duas casas juntas, os dois homens que moram nelas. São casados, um deles tem filhos.
Eram duas grandes casas, onde suas paredes eram juntas. Os jardins frontais eram bem cuidados e os carros nas garagens de um valor considerável, as famílias deviam estar bem financeiramente, embora não fossem ricos.
Lendo a ficha Ana disse:
--- Sobre o homem sem filhos: chama-se Pedro, tem quarenta e seis anos, casado, engenheiro civil, três internações graves com anemia e necessidade de transfusão de sangue e mais inúmeras passagens menos graves pelo hospital. Suas consultas iniciais datam de um ano e pouco atrás, fez exame de sangue há uma semana atrás e está com anemia grau médio. Vamos interrogá-lo?
--- E o outro? --- perguntou Leann.
Lendo Ana disse:
--- Tem quarenta e dois anos, chama-se Ronaldo, casado, três filhos, técnico em construção, trabalha na mesma empresa que o seu vizinho. Suas consultas iniciaram na mesma época. Aparentemente fizeram exames de sangue juntos há uma semana, o exame data do mesmo dia e horário quase igual, também está com uma anemia média.
Eu declarei:
--- Eles possivelmente não são vampiros, então são vítimas regulares. Teremos que descobrir se sabem sobre vampiros, podem ser a alimentação de algum vampiro local.
Prudentemente Leann disse:
--- Ana, contate Tomas Jean. Vocês não são muitos vampiros por aqui, eu quero saber, urgentemente, se esses homens são alimentação regular de algum de seus amigos. Temos que evitar mais mortes sem necessidade, ou vamos chamar demais a atenção para as irregularidades dessa noite.
A rua estava tranqüila e vazia. Descemos do carro e Ana começou sua tarefa com seu celular.
Não demorou muito e eu ouvi ruídos vindos do porta malas do carro. A médica havia retomado a conciência. Leann comentou o fato:
--- A mulher não passou muito tempo desacordada Bill, você deve estar perdendo o jeito.
Não fiz nenhum comentário, discretamente tirei a minha arma, e fui em direção ao porta malas. Abri-o já com as palavras:
--- Dra. Amanda, devo pedir seu silêncio.
Mostrei a arma à temerosa doutora que nada disse.
Fomos para dentro do carro e sentei-me lá acompanhado da doutora. Ana estava no celular mais afastada e Leann permaneceu próxima do carro, mas fora dele.
Imaginei o que deveria dizer para a médica, que não a prejudicasse ainda mais. Eu tinha sérias dúvidas se poderia fazer algo para mantê-la viva, mas as possibilidades estavam ficando remotas. Ela pareceu ler meus pensamentos, pois disse com uma voz medrosa:
--- Vocês vão me matar?
Mantendo calma disse:
--- É uma possibilidade. Estou tentando encontrar um motivo que a mantenha viva.
--- Eu tenho família, um filho depende de mim.
Tentando passar um ar paternal olhei para ela. Leann não estava preocupada se a mulher tinha ou não dependentes e Ana faria o que acreditava ser melhor para a sociedade local. A vida de um ser humano por si só era uma das últimas considerações que poderiam ser levantadas.
--- Infelizmente isso é nada. Entenda, sua morte tem que causar transtornos, graves o bastante para compensar o risco de deixá-la viva.
--- Mas o que eu fiz?
--- Estava no lugar certo, mas na hora errada. São só você, seu filho e seu marido?
Ela demorou um pouco a responder:
--- Eu não tenho marido, somos só eu e meu filho.
Eu podia perceber que ela estava mentindo. Talvez tivesse alguma pretensão de salvar outras pessoas. Sério falei:
--- Se quer que eu lhe ajude, fale apenas a verdade.
Um pouco mais assustada ela disse:
--- Minha família é grande. Eu sou mãe solteira, meu filho tem seis anos. Moro com meus pais e um irmão mais novo, mas tenho vários tios e primos, venho de família grande.
Pensando falei:
--- Você já está atrasada para chegar na sua casa. Seus pais já devem ter ligado ao hospital, já sabem que você não está por lá. Costuma sair sem avisar?
--- Não.
--- O que faria se eu te soltasse agora, não minta.
Ela pensou por um momento. Deveria estar na dúvida sobre o que falar ou fazer:
--- Iria para casa ver meu filho.
--- Continue.
--- Não sei o que dizer.
--- Esse é o problema. Você falaria demais e suas palavras podem prejudicar pessoas. Para essas pessoas é mais fácil matá-la. Torne desencorajador esse ato. Torne sua morte um fato grave com sérias conseqüências.
Ana retornou e entrou no carro. Leann também fez o mesmo e Ana começou a dizer:
--- Ainda faltam falar com dois dos nossos que estão tentando localizar, mas é improvável que esses homens sejam alimentação regular de um deles. São desconhecidos para todos os demais. Ninguém por aqui deixaria uma alimentação regular tão doente.
Leann olhou para a médica e depois em minha direção. Amanda estava a cada momento com mais informações e isso iria piorar a cada ação. Com firmeza e extrema frieza Leann disse:
--- Já não compensa mais manter a humana viva. Thorn, dê um jeito nela.
Leann era a líder naquele momento e tinha total autoridade para requisitar a minha colaboração na morte de um ser humano que colocava a missão em risco. Minha negação me colocaria em situação delicada, me deixaria em situação vulnerável diante de Leann, um risco bastante alto. Tentando um último lance falei:
--- Acho desnecessária a morte da humana. Isso resultará numa investigação, que chegará até as consultas ao banco de dados do hemocentro. Você poderia simplesmente limpar as lembranças de toda essa situação das memórias dela.
Eu não sabia se Leann tinha essa capacidade, a minha capacidade de dominação da mente é mais limitada que minha capacidade de manipulação das emoções.
Com ainda mais firmeza na voz ela disse:
--- Sua opinião foi devidamente anotada. Agora execute a humana.
Pouco mais havia que eu pudesse fazer. Uma segunda negativa significaria o equivalente a uma traição. As conseqüências poderiam ser amplas, desde a minha execução até uma simples advertência verbal do Príncipe, passando pela perda do meu posto na cidade de São Paulo.
Não existia mais razão para adiamentos. Fiz o ato de modo rápido e indolor, esmagando com precisão o pescoço da médica.
O silêncio imperou no carro por alguns segundos. Talvez Leann não acreditasse que eu faria tal assassinato com tamanha frieza, mas o ato estava consumado. Sem demora falei:
--- Serviço feito. Temos uma próxima etapa para cuidar.
A escolha lógica era o homem solteiro. Haveria menos testemunhas para o fato.
Deixamos o corpo no banco do automóvel e descemos do carro. Não havia nenhuma luz acessa na casa de destino, mas no vizinho uma luz multicolorida na escuridão indicava uma televisão ligada.
O obstáculo inicial era um simples portão de ferro. Uma corrente e um cadeado de tamanho médio eram as primeiras travas. O portão tinha pouco mais de dois metros de altura, o que permitiria que fosse pulado.
Leann segurou a corrente e pouco depois essa estava vermelha. Em alguns segundos e após algumas faíscas pouco brilhantes a corrente caiu ao solo. Eu já havia visto Tremeres e suas capacidades com fogo em ação.
Em silêncio empurramos o portão e entramos no quintal.
Passamos pelo organizado e bem cuidado jardim. Não havia um cachorro na casa, o que nos traria maiores problemas. Mais alguns passos e chegamos à porta principal.
Mais alguns segundos e a maçaneta da porta estava derretida, com pedaços pelo chão e outros presos à porta. O som havia sido mínimo e logo estávamos em uma sala de estar.
Os móveis indicavam uma situação financeira boa, havia televisão bastante grande e cara, móveis em couro bem cuidados e num bar existiam bebidas razoavelmente caras.
Os quartos deveriam estar no andar superior e com facilidade encontramos a escada de acesso. Logo encontraríamos nosso destino.
Um ronco nos indicou o quarto ocupado nas diversas portas. O homem ou sua esposa roncava dormindo. Sempre existia a possibilidade de um hóspede estar na casa.
Encontramos o casal dormindo. O escuro não era um problema para nós, que reconhecemos que o casal estava em sono profundo.
O quarto era uma grande suíte em estilo clássico. Em um dos lados uma mesa de xadrez de mármore com peças em madeira e uma partida já começada indicavam um dos gostos do homem da casa.
Com rapidez, mas em total silêncio, fechamos a cortina da janela e retiramos nossas armas para uma maior intimidação. A luz foi acesa e numa voz firme, mas não muito alta eu falei:
--- Acordem, agora!
Vagarosamente eles despertaram e Leann e Ana já estavam em posição e colocaram suas armas e posições intimidadoras. Não queríamos deixar espaço para reações que poderiam denunciar nossa presença ou ferir o homem.
Foi Leann que disse:
--- Fiquem calmos e não façam nenhuma estupidez. Isso vai acabar logo. Sr. Pedro?
Ele demorou a responder. Estava nitidamente apavorado e temendo pela sua vida e a da esposa. Por fim ele respondeu:
--- Sou eu. Por favor, nós não fizemos nada.
Leann continuou:
--- Como eu disse, seremos rápidos. Tudo terminará bem. Mas precisamos saber de uma coisa, é muito importante.
--- Por favor, minha mulher sofre do coração...
Um pouco impaciente a fria vampira disse:
--- Sua mulher estará morta em alguns minutos se o senhor não manter a calma e responder minhas perguntas, está claro?
O homem, num grande esforço, mostrou sinais de permanecer calmo. Sua esposa também estava razoavelmente calma.
Cheguei a suspeitar que a esposa do homem fosse uma vampira, seria um caso pouco comum, porém possível, mas ambos eram mortais.
Leann perguntou:
--- É um pouco complicado de explicar, mas você precisa lembrar. Você visita alguém ou é visitado por alguém que lhe dá um grande prazer momentâneo. Algo como uma relação sexual, mas não necessariamente uma. Pode ser um simples beijo ou abraço, é muito importante que você lembre.
Numa resposta automática o homem disse:
--- Não.
--- Pense homem! Eu sei que a resposta é afirmativa, mas você precisa pensar. Pode ser uma amante ou qualquer relação extra conjugal, pode ser um amigo que vocês bebem juntos. Seu vizinho Ronaldo também tem contato com essa pessoa. Vocês a vêem a mais de um ano e menos de dois anos.
O homem estava se lembrando, mas voltou a ficar assustado. Logo disse:
--- Não pode ser. Querida, eu sinto tanto...
O engenheiro começou a chorar e abraçar a esposa. Ele estava com muito medo. Possivelmente estivesse escondendo algo grave da esposa. Uma amante ou uma garota de programa eram as possibilidades mais fortes. Leann falou de modo autoritário:
--- Eu sei que você já sabe a resposta. Tem um minuto para falar, ou sua esposa morrerá. Se não conseguirmos a informação com você, visitaremos seu vizinho Ronaldo daqui a pouco.
Soltando a mulher e diminuindo o soluçar a homem disse:
--- Ronaldo e eu vamos de vez em quando na Casa das Meninas. É uma casa de garotas de programa, fica no quilômetro dois da estrada que vai para Itirapina. É a única coisa que se encaixa na descrição que você disse.
A esposa traída começou a chorar e o homem, em desespero, só pedia desculpas. Leann apontando a arma e lembrando ao homem da real situação disse:
--- Vocês visitam alguma garota em especial?
Pouco depois o homem disse:
--- Eu já estive com várias garotas da casa. Todas fazem algo diferente, é difícil explicar, diferente de outros locais.
Era nítido que Leann estava indecisa se deveria ou não matar o casal. Mais mortes no mesmo dia poderiam intensificar investigações. O homem só tinha conhecimento das perguntas feitas, nenhuma ligação com o hospital foi dita. Leann decidiu e falou:
--- Nós vamos embora agora, fique com sua esposa. Vocês estarão sendo vigiados, seus telefones e celulares estão grampeados, você não deve sair de casa até amanhã. Se você ligar para a polícia, para a Casa das Meninas, ou contar para alguém o que ocorreu aqui, nós voltaremos e mataremos sua família e a família do seu vizinho Ronaldo, você compreendeu minhas palavras?
O homem demorou alguns segundos e depois disse:
--- Sim, sim, entendi, podem ir embora tranqüilos...
Eu fui o último a sair do quarto e falei:
--- Espero não ter que te visitar novamente camarada, a próxima visita é para levar defuntos para o cemitério.
Logo estávamos novamente no carro, em direção a estrada que Ana sabia o caminho. Ainda faltavam cerca de três horas para o Sol nascer, e tínhamos esperança de resolver o caso ainda nessa noite.
Atravessamos a cidade e logo estávamos no início da estrada. Com certa preocupação Ana disse:
--- Estamos fora da cidade, não é território muito seguro. Vamos ser rápidos.
Eu falei:
--- Eu sou o único do sexo masculino aqui. Vou entrar, verifico nossas suspeitas e saio.
Ana disse:
--- Não seria ideal pedir reforços, posso ligar para o Tomas?
Leann queria o êxito da missão inteiramente em nossas mãos. Era previsível que ela negaria qualquer colaboração que ultrapassasse os serviços de uma guia. Minha suspeita se confirmou, pois a vampira disse:
--- Não, por enquanto agiremos sozinhos. Em caso de necessidade ele será acionado. Verifique se já existe a informação de outro vampiro que visite nossos dois homens. Não quero nenhuma falha na nossa operação.
Ana fez uma ligação a após algumas perguntas disse:
--- Já localizaram um dos vampiros, ele desconhece quem são os dois homens. Falta apenas uma resposta, mas essa pode levar dias. Estão com dificuldades para encontrá-lo no esgoto.
Num curto espaço de tempo estávamos em frente a uma porteira semi aberta de um sítio. Um cartaz indicava ser lá o bordel procurado e ao longe podíamos enxergar um casarão antigo de dois andares com luzes acesas e um distante som de música.
Um carro passou por nós e entrou na propriedade, passando pelo pouco espaço da porteira semi aberta. Nós seguimos, aproveitando o guia involuntário.
A presença de Ana e Leann era arriscada, poderia colocar em risco a missão. Não sabíamos se o local era freqüentado por mulheres também. Por esse motivo elas me deixaram no caminho que levava ao casarão e saíram com o carro da propriedade. Elas aguardariam o sinal emitido pelo meu celular para entrar em ação.
De perto o casarão mostrava-se ainda mais majestoso. A arquitetura antiga e os adereços de madeira maciça lavavam a construção a uma idade de várias décadas. O som de música agora era mais alto e alguns carros estavam estacionados pelo mal cuidado jardim, tomado pelo mato. Reconheci o carro que havia passado, mas seu motorista não estava a vista, possivelmente já estivesse dentro da casa.
Atravessei a varanda e me dirigi até uma grande e pesada porta de madeira. Pude ver sinais de podridão na madeira em alguns pontos. A casa estava necessitando de uma restauração.
Eu não sabia há quanto tempo a Casa das Meninas existia. Poderíamos estar seguindo uma pista incorreta, em breve eu descobriria.
Toquei um sino de ferro que estava preso à porta e em pouco tempo uma garota muito bonita que não deveria ter mais que dezoito anos atendeu a porta sorrindo e dizendo:
--- Seja bem-vindo a Casa das Meninas.
Eu estava diante de uma vampira. A leitura de sua aura não mentia e era clara demais.
A menina não percebeu que eu era um vampiro. Não pude sentir nenhuma alteração ou surpresa na sua pessoa. E quase que com certeza era do Clã Toreador, o mesmo clã que eu.
Agradeci a acolhida e com calma e prudência entrei no local. A garota estava usando sua capacidade de presença para atrair minha simpatia, a mesma que eu já usara com a falecida Dra. Amanda, mas num grau bastante fraco e inexperiente, quase imperceptível.
Entrei numa sala que era uma mistura de móveis pesados antigos e algumas aparelhagens modernas. Alguns homens mortais estavam espalhados pelos sofás conversando ou beijando garotas vampiras, outros três mortais estavam sentados numa mesa redonda jogando baralho, acompanhados de vampiras. Uma garota servia bebidas diversas e uma música animada tomava conta do ambiente, sem estar alta demais para impedir conversas.
Uma análise imediata identificou que todas as garotas eram vampiras e todos os homens mortais, pelo menos naquele ambiente.
Uma garota percebeu meu deslocamento indeciso pela sala que eu desconhecia. Com um largo e amistoso sorriso se aproximou e disse:
--- Sente-se ali, se desejar posso lhe fazer companhia. Meu nome é Suzana, como devo chamá-lo?
Pensei brevemente antes de responder. Era conveniente observar e descobrir mais do ambiente antes de qualquer ação. E aparentemente eu não estava correndo grandes riscos. As vampiras pareciam ser novas, bem inexperientes, eu duvidava que alguma das meninas tivesse mais que poucos anos de existência vampírica, ou alguma delas teria percebido minha presença.
--- Meu nome é Marcos.-- menti.
Fui em direção ao sofá apontado. Esse estava vazio. Sentei-me com calma, seguido pela minha nova companhia. Essa disse:
--- Você é novo aqui, espero que esteja gostando da nossa casa.
--- Sim, muito agradável. Estou na cidade apenas de passagem, acho que vou embora amanhã. Vocês foram muito bem indicadas.
--- Que bom. Gostaria de conhecer um dos quartos lá em cima?
A trama começava a fazer sentido, mas seu mentor ainda era um mistério. As estudantes desaparecidas estavam na cidade, mas já não eram mais humanas. As garotas mortas deviam ter sido uma imprudência, uma falta extrema de habilidade ou uma fome excessiva.
Uma senhora de cerca de quarenta anos passou pela sala e entrou em outro cômodo. Sua presença destoava bastante das outras meninas, que eram bem mais novas. Suzana deve ter percebido meu interesse, pois ingenuamente disse:
--- Aquela é Madame Felice, a proprietária desse local e nossa “mãe”. Se desejar posso apresentá-lo a ela.
--- Não há necessidade.
Sorrindo completei:
--- Meu interesse é em você. Podemos subir?
--- Claro.
Levantamos e segui a doce garota. Na privacidade do quarto eu poderia me comunicar com Leann e explicar a situação.
Madame Felice era uma vampira. Ela não mostrou nenhum sinal de me reconhecer como vampiro, mas em meio a tantos homens, ela não estaria permanentemente fazendo verificações. Não era possível precisar sua idade ou saber a extensão de seus poderes, isso ficaria para o provável confronto próximo.
O andar de cima estava ainda mais deteriorado. Maiores eram sinais de podridão na madeira e móveis antigos estavam em todos os locais. Apesar da idade dos móveis o local estava bem limpo.
Passamos por várias portas fechadas, possivelmente quartos já ocupados. Mais para o final do corredor encontramos algumas portas abertas e entramos numa delas.
O quarto não era grande. O espaço disponível era ocupado por uma cama de casal, um criado mudo e uma pequena mesa com um espelho. Um armário embutido estava fechado e uma porta entre aberta indicava um pequeno banheiro.
A cama já estava impecavelmente arrumada com um fino lençol. Todo um clima criado para envolver as futuras vítimas.
Eu já havia conhecido casas de prostituição e escolas de teatro que serviam de fachadas para grupos de vampiros na Europa, mas pela primeira vez via o caso no Brasil. Só que os grupos europeus que conheci eram autorizados e a casa atual era clandestina.
Suzana não se demorou. Devia estar com fome. Deitou-se na cama e abaixou a blusa, deixando aparecer lindos seios. Expondo um sorriso chamativo disse:
--- Venha se deitar. Tenho certeza que você nunca esquecerá essa experiência.
Sentei-me na cama, aguardando e preparado para o que estava por vir. A garota tocou meus ombros e com voz suave disse:
--- Você está tenso, relaxe, não vou te morder.
A declaração não deixou de ter certa ironia, pois era exatamente isso que ela faria.
Sua fome deveria estar grande, mal eu deitei e ela cravou caninos no meu pescoço. Eu esperava mais alguns minutos antes que ela fizesse isso.
Com extrema rapidez acertei com precisão uma cotovelada no queixo da garota, que mais que assustada caiu para trás.
Antes que outros atos inesperados fossem realizados segurei com força a boca da doce garota e coloquei meus dentes em contato com seu pescoço.
Bebi o sangue quente de vampiro rápido. Era questão de tempo para a guerra começar e aquela vampira ficaria fora da ação, fraca demais para fazer algo.
Em pouco tempo a vampira estava com uma quantidade mínima de sangue. Soltei-a na cama ainda acordada, mas era uma questão de tempo antes de ficar inconsciente. Essa disse numa voz quase inexistente:
--- Quem é você?
Eu me sentia forte. O sangue de um vampiro é mais forte e consistente que o de um mortal. Já pegando meu celular falei:
--- O mesmo que você, um vampiro, só alguns séculos mais velho que você.
Disquei o número de Leann e falei:
--- Leann, suspeitas confirmadas. Estou sozinho no momento, mas a casa tem inúmeras vampiras, todas neófitas. Tem uma vampira “mãe”, mas não sei sua idade, desconheço o grau do perigo nela. Tem muitos homens mortais na casa, isso pode representar um grande problema.
--- Estamos indo para ai. Quando você ouvir a ação começar, atire a vontade.
--- Não sei se fui claro, mas tem humanos na casa, um massacre aqui trará um escândalo na cidade. A destruição desse local chamará bastante a atenção.
--- Eu entendi sua observação, mas quando terminarmos nada sobrará para ser investigado. Vítimas mortais não são importantes. Fui clara?
--- Sim, aguardo um sinal de ação.
Desgostoso desliguei o celular. Calculei que em menos de dez minutos Ana e Leann já teriam chegado. Não sabia quanto tempo Suzana ficaria comigo no quarto, mas seria mais que isso. Dependendo da quantidade de sangue bebido, um mortal ficaria desacordado algum tempo, uns trinta minutos era um tempo bem razoável, uma hora totalmente tolerável.
Passaram-se quase dez minutos, quando a pesada porta foi aberta com violência.
Eu já estava pronto para a ação e quase não fui surpreendido. Minha ágil arma colocou dois tiros no peito da vampira que entrou. O som fora ouvido provavelmente na casa toda.
Uma multidão de vampiras formou-se rapidamente na porta, prontas para invadir o quarto. Ao verem a garota ferida no chão elas hesitaram e a segunda garota foi atingida por mais três tiros e também caiu.
Fiz alguns disparos em direção a porta e com agilidade joguei-me contra a janela de vidro.
Rolei por um telhado e a varanda, caindo no quintal. Um mortal estaria ferido ou morto, mas eu era muito mais resistente que um mortal. Levantei-me com rapidez e meus olhos procuraram sem sucesso onde estavam Leann e Ana. Algo estava fora de controle.
A missão precisava ser completada a qualquer custo. Leann era uma das peças importantes no jogo da política de São Paulo, mas naquele momento a missão era uma prioridade maior.
Homens assustados saíram da casa. Alguns saíram correndo em pânico pela estrada, outros se dirigiram até seus carros.
Um tiro passou a poucos centímetros da minha cabeça, me fazendo instintivamente abaixar de encontro ao solo arenoso. Não consegui localizar a origem do disparo, mas vampiras já estavam atravessando a porta e chegariam até mim em breve.
Ainda abaixado fiz minha arma trabalhar. Com precisão fiz meus disparos acertarem vampiras que estavam vindo em minha direção, ao mesmo tempo em que tentava localizar quem estava armado.
Enxerguei Leann andando abaixada a uns trinta ou quarenta metros distante. Não vi Ana.
Com raiva gritei:
--- Estou aqui em nome do Príncipe David Sherman, considerem-se ferredas!
As vampiras recuaram e a casa ficou em silêncio. Leann já estava mais próxima e fui ao seu encontro com cuidado. Ao chegar ela falou:
--- Estou desarmada, aquela vagabunda da Ana traiu-nos.
A informação me surpreendeu. Em momento nenhum pude identificar em Ana qualquer intenção de traição.
Leann estava bastante suja de sangue e suas roupas rasgadas, deveria ter tomado vários tiros de Ana. Leann era poderosa e experiente, seus ferimentos fechariam em minutos dependendo da gravidade. Ana pegou-a muito de surpresa, ou não teria tido chance.
Eu perguntei:
--- Está em condições? Temos que matar todas bem rápido. Homens fugiram, logo a polícia estará aqui. O Sol também não demorará a nascer.
A poderosa vampira estava raivosa. Um novo tiro passou bem próximo a nós. Percebi que ela iniciara concentração para algo.
Cerca de dez segundos depois descobri o que era a concentração iniciada. Erguendo os braços Leann soltou em direção a uma multidão de vampiras que estavam chegando uma grande bola de fogo mágica.
Em desespero as vampiras se debatiam. Algumas já estavam caídas inertes e queimando.
Troquei o pente de munição da arma. Com muita raiva e berrando corri para a casa, já abatendo com disparos no caminho as vampiras que foram possíveis.
Entrei na casa. Eu já conhecia a sala. Alguns homens estavam caídos inertes no chão, seus pescoços estavam dilacerados, as vampiras estavam desesperadas.
Um tiro atingiu meu peito, seguido de outro tiro no ombro. Na direção dos disparos estava a traidora Ana.
Mais um disparo atingiu meu peito e por um momento perdi o equilíbrio. Apontei minha arma e disparei contra Ana.
O preciso tiro acertado na cabeça desestabilizou Ana. Essa caiu ao chão e ficou imóvel. Ela demoraria algum tempo para se recompor.
Aproveitando do tempo de descontrole, me recompus, ativei uma rápida recuperação dos ferimentos e atirei novamente em Ana que estava ainda ao solo e numa vampira que estava ao seu lado.
A resistência diminuiu até desaparecer. Leann recuperou sua arma com Ana e ambos andamos pela casa inteira, disparando contra vampiras assustadas. A vampira “mãe” caiu tão fracamente quanto suas filhas, apesar de sua aparência mais velha, era uma vampira novata.
Senti-me mal com o fato. Sabia estar lidando com vampiros não autorizados, ou seja, invasores sem direitos, mas eram meus semelhantes. Atiramos também em alguns mortais assustados que estavam escondidos pela casa, a existência de testemunhas não nos interessava, não havia tempo para perdão.
Arrastamos corpos de vampiras para dentro da casa. Algumas estavam completamente queimadas, outras apenas feridas e tentando uma recuperação, algumas desacordadas. Talvez alguma garota tivesse conseguido escapar para a mata, mas o Sol breve surgiria e completaria a tarefa nesse caso.
Ouvimos uma sirene ao longe. Leann disse:
--- A situação está fora de controle. O Sol já está quase nascendo, a polícia estará aqui em minutos. Você pode nos esconder com invisibilidade Thorn?
--- Sim, por algum tempo.
--- Eu tenho uma saída.
Assustados nós empenhamos as armas em direção a voz. Depressa falei:
--- Espere Leann, vamos ouvir o que ela tem a dizer.
Fui capaz de fazer Leann escutar antes de disparar. A dona da voz era Suzana, a vampira, ainda abatida, mas consciente. Ela olhou com nojo as outras vampiras e disse:
--- Existe uma saída secreta da casa, subterrânea, nos levará a um local seguro.
Leann estava temerosa com uma nova traição. Eu falei decidido:
--- Temos pouco tempo, vamos queimar tudo por aqui. Em hipótese nenhuma essas vampiras podem ser localizadas.
A polícia já estava bem próxima. Aparentemente dois ou três carros de polícia.
Suzana levou-nos até a cozinha. Numa velha adega, arrastou uma estante de vinhos, depois empurrou uma pesada porta de ferro e disse:
--- Um túnel de uns trezentos metros. Não será achado com facilidade pela polícia. Com esse local queimando, só será achado quando examinarem os destroços.
Leann voltou à sala e reconheci que iniciava uma concentração. Fez sinal para que fôssemos para o túnel e pouco depois ela apareceu correndo.
Puxamos a estante de vinhos de volta ao seu lugar original. Descemos uma escada e Leann disse:
--- A sala está em forte estado de chamas. O fogo se alastrará rápido pela casa, não sobrará um corpo para ser analisado. Não existirá tempo para a polícia tentar apagar o fogo. A maioria dos corpos das vampiras estavam na sala.
Andamos por algum tempo em escuridão total. Mesmo nossos olhos treinados não enxergavam tudo com nitidez. O túnel era estreito e baixo, com forte cheiro de mofo e umidade.
Chegamos ao final do túnel. Percebemos uma pequena portinhola de ferro acima de nossas cabeças. Suzana disse:
--- Estamos a cerca de trezentos metros da casa. Sobre esse alçapão está terra e mato, não será encontrado mesmo que façam uma busca pela floresta. Só poderemos abri-lo à noite.
Leann estava desconfiada de Suzana e perguntou:
--- Quem é você, porque nos ajudou?
--- Eu me chamo Suzana Silva. Fui à primeira das “filhas” de Albertina Felicia, a “mãe”. Antes eu era estudante de Direito.
Eu perguntei:
--- Você conhecia Ana Trian?
--- Sim, era amante da mãe. Mas de alguns meses para cá as duas brigavam muito. Já fazia uns três meses que eu não via a Ana por aqui.
Leann, menos desconfiada, perguntou:
--- E quem criou vocês?
--- A mãe, Albertina. Ela me adotou como filha e amante. Atendíamos clientes na cidade para nossa alimentação, só depois a mãe arrumou aqui, já éramos em sete meninas quando viemos para cá. Depois disso o número só cresceu, a mãe sempre aparecia com uma nova irmã.
Eu perguntei:
--- E porque nos ajudou?
--- Nunca estive feliz nessa vida. A mãe me tornou um monstro. Eu a odiava por isso. Algumas meninas gostavam dessa situação, eu não. A mãe dizia que não existiam mais vampiros, somente nós. Quase não acreditei quando vocês apareceram.
Leann perguntou:
--- Com que intenção Albertina criava vocês?
--- Não sei ao certo. Ela gostava de novas amantes, se entediava logo com as meninas novas. Ana sempre foi contra, lembro de presenciar discussões entre elas quando Ana via uma vampira nova. Acho que a única vampira que a mãe não enjoava era Ana.
O mistério se desenrolara. Um núcleo ilegal estava desfeito. A missão obtivera sucesso, mas as conseqüências ainda eram imprevisíveis. Uma apurada investigação poderia chegar aos doentes de anemia e levantar suspeitas sobre nós. Lembrando-me perguntei:
--- Onde está nosso carro Leann?
Pensando ela disse:
--- Paramos junto com outros carros, na volta da casa.
--- Vamos torcer para que o carro tenha incendiado e o corpo da médica carbonizado.
O risco de uma investigação que chegasse ao hospital era forte. Mas com a chegada do dia, nada mais restava que aguardar pela escuridão da noite.
Leann não confiava em Suzana. Eu podia sentir que ela também não confiava em nós. Dormi uma parte do dia e Leann em outra. Se o túnel fosse localizado teríamos que resistir, mas o fato não aconteceu.
O entardecer chegou e logo a escuridão. Só pudemos abrir o alçapão quando nossos relógios mostraram um horário seguro.
Eu me sentia cansado. Dormira menos que o habitual. Leann também estava cansada e mesmo Suzana havia dormido pouco, bastante temerosa de ser traída e morta por nós.
O alçapão foi aberto e com cuidado saímos. Estávamos em uma mata. O alçapão era bem escondido, estava bem tomado por mato rasteiro e plantas maiores, além de semi enterrado. Com extrema cautela andamos em direção a casa.
Não pudemos chegar muito perto da casa queimada. O som de muitas vozes ainda podia ser ouvido. Às vezes podíamos também ouvir o som de alguma máquina ou de um carro indo ou vindo.
Não sabíamos como contatar Tomas Jean, não sabíamos também até onde podíamos confiar nele. Leann disse:
--- Chega. Vou ligar para São Paulo. Pouco poderemos fazer aqui. As conseqüências dessa missão terão que ser posteriormente avaliadas, o envolvimento dos mortais fugiu ao nosso controle.
Ela pegou o celular e pouco depois disse:
--- Sherman, é Leann. Missão bem sucedida, mas as conseqüências ainda não podem ser medidas.
Com um breve resumo Leann Cornwall explicou ao príncipe o ocorrido e a situação atual. Depois ouviu durante algum tempo. Após desligar ela disse:
--- São Paulo entrará em contato com Tomas Jean. Não está definido o comprometimento dele com a traição de Ana. Uma invasão de grande porte vinda de São Paulo não está descartada. Alguém nos ligará.
A situação era de risco, tanto pelo envolvimento dos mortais no caso, como pela possibilidade de envolvimento de outros vampiros na traição. A cidade de São Carlos poderia ser invadida e seus membros executados, era uma possibilidade pequena, mas existente.
Andando pelo mato chegamos à estrada. Estávamos correndo risco de encontrar algum inamistoso de passagem, mas felizmente não tivemos problema.
Numa caminhada não muito longa chegamos à cidade. O celular de Leann tocou. Pouco depois de ouvir um pouco ela explicou nossa localização. Depois desligou e disse:
--- Em uns dez a quinze minutos um carro nos pegará aqui. Iremos ao pequeno aeroporto, um avião já nos aguarda para levar-nos a São Paulo. Tomas Jean irá conosco para São Paulo e Suzana também. Ainda está sendo acompanhada e analisada a conseqüência da missão junto aos mortais. O nosso carro e o corpo da médica foram localizados e estão em posse da polícia.
Suzana estava com medo. Sua situação era complicada, sua criação não era autorizada, na prática ela não tinha direitos. Mas ela era do meu clã e na hora certa eu poderia tentar intervir.
O carro apareceu em pouco mais de dez minutos. Tomas Jean estava acompanhado de apenas um vampiro. O motorista era mortal.
O retorno para a cidade de São Paulo ocorreu sem conseqüências. A viagem foi rápida e um carro nos levou a mansão do príncipe.
Eu estava feliz com o retorno. Havia sobrevivido a missão e estava novamente nos meus domínios. A missão foi bem sucedida, o que em muitos casos isso não ocorre. Porém as conseqüências poderiam ter agravantes delicados.
A mansão de Sherman é muito bem guardada. Após diversas verificações fomos separados. Suzana e Tomas foram levados para um outro local e Leann e eu encaminhados para uma sala de estar.
A sala era simples, monitorada por câmeras e possivelmente com escutas. Após aguardarmos quase duas horas Sherman apareceu.
O Príncipe estava trajado com seu costumeiro termo negro. Dois de seus membros da segurança entraram juntos, o que não me preocupou, pois era uma rotina normal.
Tentando dar algum sorriso Sherman disse:
--- Espero que tenham tido um bom retorno. Parabéns a vocês, a missão foi um sucesso. Se houver necessidade, depois faremos uma reunião sobre a missão. Thorn, você está dispensado, Leann, temos algumas coisas a discutir, teremos uma reunião em duas horas.
Eu conhecia o modo direto de Sherman conduzir as coisas, mas não gostava desse modo. Eu ainda tinha interesses em jogo e perguntei:
--- Mr. Sherman, foi descoberto algum envolvimento de Tomas na traição?
Olhando-me com pouca paciência ele disse:
--- Ele acabou de ser interrogado. Nada aponta para uma traição da parte dele. Retornará agora para São Carlos, providências poderão ter que ser tomadas devido ao envolvimento dos mortais no caso. Por enquanto a mídia aponta apenas para ação de vândalos ou de grupos extremos contra a prostituição. A casa queimou completamente, destruindo provas. Nenhuma testemunha viva. O assassinato da médica está sendo conduzido como um seqüestro comum seguido de morte, nada extraordinário por enquanto.
Ainda insistindo perguntei:
--- E Suzana?
Ele demorou um pouco mais a responder:
--- Ela está confinada no momento. Seus interrogatórios até o momento apenas comprometem a vampira Ana, eliminada na missão.
--- Qual o destino dela?
--- Depois dos fatos esclarecidos, ela é descartável.
Tomando coragem falei:
--- Ela é uma vampira do meu clã. Quero pedir autorização para integrá-la a sociedade de São Paulo, como um novo membro do Clã Toreador.
Ele demorou ainda mais a responder. Meu pedido era incomum, mas minha posição na primigênie favorecia-me com a concordância do pedido. Ele respondeu:
--- Esteja aqui em quarenta e oito horas. Se a segurança não estiver comprometida... ela será sua responsabilidade. Mais alguma coisa?
--- Não, obrigado.
--- Está dispensado.
Antes que eu saísse ele fez um gesto e depois perguntou:
--- Apenas por curiosidade, qual seu interesse na neófita? Ela pode ser uma fonte de vários problemas.
A pergunta era mais perigosa do que mostrava. Mas minha resposta também foi mais astuta do que aparentava:
--- Eu a achei muito gostosa.
Ele nada comentou e eu me retirei.
Num misto de alegria e apreensão deixei a mansão e fui para o meu apartamento. Estava cansado de tantas emoções fortes e tinha negócios a cuidar.
As notícias dos dias posteriores foram tranqüilas. São Carlos voltou a sua vida e pós vida normais e o episódio tratado como mais um caso estranho, num mundo ainda mais estranho.
Eu ganhara uma nova criança a ensinar.

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