quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Uma Importante Figura

Fernando Firpo


É uma pena que a mente humana, mesmo sendo imortalizada no corpo de um vampiro, tem extremas limitações. Fatos da existência são aos poucos esquecidos, sobrevivendo apenas as mais fortes lembranças, os mais resistentes sentimentos. Os anos, décadas, séculos acabam levando muitos detalhes ao esquecimento.
França, século XV, ano de 1420 DC, uma formação de inúmeras aldeias. É muito estranho comparar a França atual com a histórica. São como diferentes mundos, épocas e pessoas diferentes, uma nação em mutação.
A Inglaterra, mais poderosa militarmente, invadiu diversas partes da França, cometendo diversas atrocidades e escravizando boa parte da população. Apenas um dos vários caos passados pela história.
Quando me recordo sobre minha pós-vida nessa época fico assustado. Como é forte a besta presente num vampiro. A resistência tem limitações, mas a paciência da besta é eterna.
Eu vivia nas matas, numa pequena caverna, caçando durante a noite. As roupas não tinham sentido, meus sentimentos e minhas sensações se resumiam a frio e calor, fome e satisfação, vivendo como um animal selvagem, um predador movido pelo instinto, caçando qualquer coisa, buscando sangue e vida.
Assisti sem preocupação ao massacre de uma pequena vila, soube depois que a vila se chamava Domremy. Soldados ingleses queimavam as casas e massacravam a população. Se pensamentos existiam na minha mente naquela época, eu pensei com confiança em me alimentar depois dos corpos sem vida, dos espólios do que foi uma civilização.
Uma pequena garota se afastou sozinha, fugindo do fogo e do caos, assustada e inocente.
Não me preocupei, haveria sangue farto na aldeia, não havia necessidade de provar o pouco sangue de um corpo tão jovem. Mas por uma imposição do destino, ou por mera coincidência, a pequena garota se encaminhou na direção onde eu me encontrava.
Um dos guerreiros, mesmo em meio à confusão, percebeu a fugitiva. Possivelmente tentado pelo corpo juvenil da garota se colocou em perseguição da mesma.
Eles estavam muito próximos quando o homem conseguiu segurá-la, já a alguma distância da aldeia. Ele começou rasgando suas roupas, deixando a infeliz inocente chorando e gritando em desespero.
Com poucos passos pude segurar com força o homem por trás e no instante seguinte já estava me satisfazendo de sua vida.
Surpreendido o homem pouco reagiu e logo se tornara apenas um corpo em meus braços, mais um vítima da noite. Eu estava satisfeito, contemplado com sangue e vida.
A garota estava muito assustada. Quase não se moveu, permaneceu tremendo e chorando, jogada ao solo, assistindo imóvel a terrível cena.
Eu havia esquecido o que eram sentimentos, mas a visão da triste menina trouxe uma parte que eu havia esquecido que existia. Mas a besta era muito forte.
Decidi me alimentar da garota e deixar logo as proximidades da aldeia. É imprudente ficar no local com tantos guerreiros próximos.
Chegando próximo ao pescoço da minha nova vítima senti um forte impacto me atingir, como se eu tivesse me projetado com força contra uma árvore ou uma grande construção.
Não havia ferimentos no meu corpo, não havia mais nenhuma pessoa próxima, por algum tempo fiquei no solo perplexo com o ocorrido, até que se levantando e em completa calma a garota disse:
--- Mesmo sem querer você salvou uma profecia. Eu não poderia interferir com as ações de um ser humano normal, mas posso com as suas. Você realizou a primeira das três profecias. Em recompensa vou devolver-lhe algo que você perdeu há muito tempo e que nunca mais perderá.
A garota, com bastante agilidade, virou-se e começou a correr, se afastando da aldeia e do caos, me deixando imóvel e muito assustado. Eu havia me deparado com algo maior, mais forte e desconhecido. Eu sentia que estivera diante de um poder inimaginável.
Ouvindo a confusão distante também me coloquei em movimento desaparecendo na noite, me preparando para retornar quando a caça estivesse a minha disposição. Reparei que estava nu. Já fazia muito tempo que eu não me importava com roupas.
Demorou algum tempo para que eu pudesse compreender as palavras ditas pela garota. Eu nunca soube que poder imenso foi aquele, mas soube depois quem era aquela garota e a importância que teve para a história da França e do mundo.
Eu havia ganhado a força que me faria seguir os séculos crescendo, aprendendo, evoluindo e até onde era possível, vivendo. Eu havia recebido um presente impossível, doado pelo protetor da garota que cresceria, lutaria e morreria pelo fogo. Seu nome era Jeanne La Pucelle, sendo posteriormente lembrada como Joana D’Arc.


"Que a mulher comumente chamada de Jeanne La Pucelle... será denunciada e declarada feiticeira, adivinha, pseudoprofeta, invocadora de maus espíritos, conspiradora, supersticiosa, implicada na prática de magia e afeita a ela, teimosa quanto à fé católica, cismática quanto ao artigo Unam Sanctam, etc, e, em diversos outros artigos de nossa fé, cética e extraviada, sacrílega, idólatra, apóstata, execrável e maligna, blasfema em relação a Deus e Seus santos, escandalosa, sediciosa, perturbadora da paz, incitadora da guerra, cruelmente ávida de sangue humano, incitando o derramamento do sangue dos homens, tendo completa e vergonhosamente abandonado as decências próprias de seu sexo, e tendo imodestamente adotado o traje e o status de um soldado; por isso e por outras coisas abomináveis a Deus e aos homens, traidora das leis divinas e naturais e da disciplina da Igreja, sedutora de príncipes e do povo, tendo, em desprezo e desdém a Deus, consentido em ser venerada e adorada, dando as mãos e a roupa para serem beijadas, hereje ou, ou de qualquer modo, veementemente suspeita de heresia, por isso ela será punida e corrigida de acordo com as leis divinas e canônicas..."

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